O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Horácio Lafer Piva, confirmou que a indústria está atravessando uma fase de crescimento. Segundo ele, esse cenário positivo deve se estender por todo o ano, antecipando que existe a possibilidade de o PIB industrial ser maior do que o PIB geral – o da indústria deve crescer em torno de 4,5%, e o geral, por volta de 3,5%. Este é um dos dados positivos que vem sendo observados nos últimos tempos, ao qual se pode acrescentar o excelente superávit comercial obtido pela balança brasileira, no mês passado, além de indicadores relativos a um aumento na criação de postos de trabalho. Todavia, estes fatos não devem levar a conclusões que possam mascarar uma realidade ainda é séria. No particular, vale assinalar que pesquisa do Serasa – Centralização dos Serviços dos Bancos – indica que de cada mil cheques emitidos e compensados no Brasil, no primeiro quadrimestre do ano, dez foram devolvidos. Em igual período de 1999, de cada mil cheques emitidos e compensados, 9,7 foram devolvidos. Segundo aquele levantamento, em abril deste ano houve um aumento de 4,2% no volume de cheques devolvidos sobre igual período de 1999.
O assessor econômico do Serasa, Carlos Henrique de Almeida, entende que esta elevação da média de devoluções de 2000 reflete o alongamento de prazos concedidos para os pagamentos com cheques pré-datados, especialmente no final do ano passado. Isto é, surgem agora os efeitos de eventuais abusos cometidos pelos consumidores no final do ano, estimulados pelo comércio, que em alguns casos poderiam até refletir a esperança de que em 2000 os problemas seriam resolvidos. O otimismo que surgiu naquela época, os anúncios segundo os quais o Brasil efetivamente iria superar as dificuldades e que o ano que estava para começar marcaria uma fase melhor na vida do povo, tudo pode ser apontado como causa para despesas a mais. O uso imoderado dos cheques pré-datados (que muitos recebem como dinheiro) ajudou a ampliar esta situação.
Entretanto, mais importante que tudo é perceber nestes números apresentados pelo Serasa que ainda não se está vivendo a etapa de euforia e crescimento que se espera. Os bons indicadores, vale ressaltar, representam apenas o começo. Há ainda um longo e complicado caminho a percorrer, existem dificuldades bem sérias a superar, é muito elevado o total dos brasileiros que continuam a buscar emprego, sem sucesso, falta muito para se atingir o desenvolvimento sonhado pela maioria. Naturalmente, não se pode minimizar os êxitos, mas é preciso manter os pés no chão e insistir em que ainda é preciso um trabalho muito grande para resolver os problemas que afligem os brasileiros. O risco de se tomar alguns bons indicadores como uma tendência é perigoso. Já produziu, em outras ocasiões, um falso ufanismo, que frustrou ainda mais a população.
O crescimento da produção industrial, até mesmo a boa projeção sobre o setor, feita pelo presidente da Fiesp, assim como alguns outros dados positivos devem ser vistos em sua dimensão real: indicam que o Brasil está no caminho certo, deixou a situação de há alguns meses. Mas precisa ainda caminhar muito para atingir os objetivos mais concretos, entre os quais o de garantir aos brasileiros o trabalho digno, o salário justo, a condição de vida aceitável. Os governos têm, infelizmente, certa tendência de festejar antecipadamente alguns ‘êxitos parciais’. Mas ainda têm muito a fazer para garantir aquilo que a população precisa, reclama e merece.

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