Editorial - CPI eficiente
CPI eficiente
A fotografia publicada na primeira página dos principais jornais brasileiros, na quinta-feira, em que um advogado, considerado o braço jurídico do tráfico de drogas em 14 Estados do País, é retirado preso do local em que a CPI do Narcotráfico ouvia depoimentos, em Campinas, é indicativa de uma nova situação que está surgindo no Brasil. Com efeito, as decisões que já surgiram em função do trabalho desenvolvido por aquela Comissão Parlamentar de Inquérito, que incluem prisões de gente acobertada pela impunidade absoluta, denúncias contra personalidades acima de qualquer suspeita e toda a revelação de uma rede tremenda de crimes, são algo inéditas em nosso país. Na verdade, outras investigações recentes, em especial a do sistema financeiro e a do Judiciário, têm ido bem além do que se via neste Brasil de muito abuso e pouca punição, começando a dar à população uma idéia nova sobre a seriedade com que alguns resolveram lutar contra a impunidade. Mesmo, porém, neste quadro, o que se vê na CPI do Narcotráfico surpreende positivamente, de tal modo que vai perdendo a força aquela antiga idéia segundo a qual qualquer tipo de investigação ou denúncia, por mais séria que seja, acaba em pizza.
O que a CPI do Narcotráfico já revelou não chega a surpreender. O Brasil não é, como se tentou fazer a população crer nos tempos da ditadura, uma ilha de paz no meio de um mundo em dificuldade tenebrosa. O crime organizado tem aqui, como em toda parte, seus tentáculos. O problema era conseguir que houvesse coragem para investigar, disposição de ir a fundo e vontade para enfrentar inclusive o perigo de afrontar o poderio dos cartéis de drogas que hoje movimentam bilhões no mundo e constituem, muitas vezes, um poder acima da lei e da civilização. É isto o que a CPI do Narcotráfico vem fazendo, produzindo como resultado adicional um trabalho maior de outros órgãos envolvidos na luta contra o crime.
É prematuro considerar esta batalha vencida. Trata-se de uma contenda das mais complicadas, envolvendo forças verdadeiramente assustadoras. O que é importante, porém, é sentir que existe um trabalho corajoso e honesto sendo realizado na busca da Justiça e da moralidade. O Brasil superou, ao longo dos últimos anos, alguns enormes desafios. A grande vitória contra o totalitarismo abriu esperanças que ainda não se concretizaram. Entretanto, é certo que alguma coisa está mudando. Ver um advogado poderoso, o consigliore (termo que, na literatura, se dá aos advogados que orientam os mafiosos), sendo preso, é um sinal importante. Não se pode também esquecer outros fatos, a cassação de mandato de alguns deputados, a prisão de antigos parlamentares, de policiais, a caçada a empresários que, até agora, eram tidos como probos e retos, mas que escondiam um subterrâneo de crimes em suas vidas, são fatos não usuais na vida do Brasil e que, por si, alimentam expectativas positivas.
Além dos resultados práticos já apresentados, a CPI do Narcotráfico apresenta outro, sem dúvida igualmente importante: está restaurando a credibilidade do povo na ação dos seus representantes. A percepção de que também os aparentemente poderosos começam a ser punidos representa um passo vital na retomada da confiança que é básica na relação entre os que governam e a população. Ademais, surge também o entendimento de que o crime organizado pode ser enfrentado, de que a sociedade organizada tem condições e forças para fazer prevalecer a lei sobre a criminalidade. Restaura, com isto, a confiança na civilização, o que é fundamental para a vida em sociedade.





