Editorial - Corrupção no mundo
A corrupção, constatam os mais importantes organismos econômicos, como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, é um fenômeno mundial. Suas origens remontam, no Ocidente, aos tempos da decadência do império romano. É algo quase tão antigo quanto a civilização ocidental e é dessa praga que hoje o mundo inteiro padece. A remissão ao passado dá apenas a medida do que os governos sérios e a sociedade organizada têm de combater. Com a agravante de que a corrupção, na maioria das vezes, está dentro dos próprios governos e é permitida de várias maneiras pela própria sociedade.
A globalização da economia fez da corrupção um fenômeno multinacional. A supressão das barreiras comerciais e alfandegárias, a agilização dos negócios, a multiplicidade dos interesses e o volume de recursos disponíveis no mercado internacional tornam a prática da corrupção mais fácil, atrativa e lucrativa. Combatê-la é uma tarefa que compete aos países individualmente, embora esse esforço precise ser também globalizado para ter sucesso. Mas inegavelmente deve começar dentro das fronteiras nacionais.
Isto porque não tem sentido falar mal do vizinho - isto é, dos paraísos fiscais e dos governos negligentes - se nossa própria casa está em desordem. Em duas décadas de ditadura, seguida de um período em que a inflação atingiu níveis inconcebíveis, a corrupção no Brasil tornou-se quase institucional. Endêmica, como diz com propriedade o documento da Embaixada americana. Esta é uma das causas que precisamos eliminar e, por incrível que pudesse parecer três anos atrás, estamos conseguindo.
Mas a corrupção tem um segundo pilar - muito mais difícil de pôr abaixo -, que remonta à nossa tradição autoritária, monárquica e clientelista. Embora já tenhamos vencido o período mais totalitário de nossa história, ainda não saímos do autoritarismo representado por um Estado arcaico e quase familiar, vigente em muitas partes do País e, em alguns aspectos, no próprio governo central. É isto que ainda precisamos mudar e será a parte mais difícil.
Não é impossível. O Governo federal e vários governos estaduais estão privatizando empresas que eram suas, onde podiam fazer o que bem entendessem, e isto significa que estão abrindo mão de privilégios, de favoritismos, de fisiologismos que vêm de séculos. A imprensa livre, denunciando com vigor os abusos, exerce um papel básico e cada vez mais forte. E a população, que é outra desde a campanha das diretas, assume com firmeza a própria cidadania, inclusive destituindo do poder - pela pressão e pela imprensa - um presidente corrupto e apoiando, decididamente, um plano econômico que é bombardeado todos os dias pelas oposições.
Obviamente, a luta contra a corrupção não é só uma questão interna. Assim como já se constatou que só será possível enfrentar o desafio do crime organizado através de uma ação mundial, o combate ao processo corruptor precisa ter contornos globais. E isto já está acontecendo. Organismos como o FMI e o Banco Mundial estão sendo mais exigentes na concessão de empréstimos. Além da situação econômica interna, querem conhecer a transparência do serviço público e até o nível de combate interno à corrupção.
Esta forma de agir, que alguns vão rotular de intervencionista, nada mais é do que uma efetiva defesa do interesse comum. É um primeiro passo para a globalização da ética e da honestidade, virtudes que temos de aprender a cultivar dentro de nossas fronteiras se quisermos ser um país respeitado no mundo e captador da poupança internacional.





