Cálculo da Fundação Getúlio Vargas indica que a renda per capita dos brasileiros poderia praticamente dobrar, em 20 anos, se o índice de corrupção no país caísse em apenas 10%. Estes números dão base a uma campanha contra a corrupção que será lançada na segunda quinzena deste mês pela ONG Transparência Brasil, entidade que reúne empresários de diversos setores, juristas, acadêmicos, economistas, entre outros. A citada organização é uma divisão da Transparência Internacional, organização presente em 77 países, com sede em Berlim, que funciona desde 1992, sempre tendo como prioridade o combate à corrupção no mundo inteiro. O presidente da entidade no Brasil, Eduardo Capobianco, informa que hoje a corrupção está no topo da agenda da maioria dos países. Não é, portanto, apenas um mal brasileiro, mas um câncer que está corroendo o planeta.
Os dados fornecidos pela FGV são efetivamente assustadores. O fato de se anunciar uma quase duplicação na renda da população brasileira em duas décadas, apenas reduzindo em 10% a corrupção no País, dá uma idéia da imensidão do prejuízo que este mal produz. É verdadeiramente assustadora a informação, assim como é muito sério perceber a dificuldade que existe na luta contra esta prática. Se a diminuição da corrupção apenas nos níveis citados pode possibilitar um melhoria tão grande de vida para a população deste pobre e carente país, é de se perguntar qual seria o resultado caso fosse possível conter plenamente estes atos ilícitos. Diante da realidade brasileira (e mundial, também) a impressão é a de que os brasileiros poderiam se contentar com a pequena vitória, de 10%, que já produziria grandes resultados.
É uma reação natural, mas inaceitável. O senso de cidadania que se implanta no País reclama um objetivo ainda maior, como um imperativo mesmo da nova realidade que se precisa impor a fim de que o Brasil possa deixar de vez esta trágica situação de miséria, atingindo patamares melhores, capazes de garantir vida digna para todos os brasileiros. Sabe-se da dificuldade deste combate, é aceitável estabelecer algumas metas iniciais (como a redução em 10% nos próximos 20 anos), mas é vital que persista a idéia básica de não aceitação de nenhum tipo de atitude corrupta, notadamente nos meios públicos – que são, afinal, o grande foco em que se dissemina este mal.
A campanha da Transparência Brasil para reduzir a corrupção visa, no primeiro momento, as eleições de outubro. O entendimento segundo o qual o voto consciente e firme é a primeira e melhor arma na luta contra os políticos corruptos é correto. Este, porém, é apenas um primeiro passo, até porque não se pode esquecer que muitos políticos honestos e bem-intencionados, enquanto candidatos, sofrem uma transformação muito grande a partir do momento em que recebem o mandato. Assim, escolher bem nas eleições, a partir desta de outubro, é importante, mas manter a luta depois disto, cobrando, reclamando, exigindo postura correta dos eleitos é também fundamental.
Isto significa, naturalmente, que a sociedade precisa realmente modificar seu comportamento, através de uma mobilização permanente. A grande maioria, infelizmente, ainda considera que a única missão que a cidadania impõe é a do voto. Muita coisa tem mudado no Brasil nos últimos anos, sem dúvida, como se percebe com a mobilização em vários pontos do País contra a corrupção e na exigência dos direitos dos cidadãos. Este é o processo que precisa continuar, mesmo após as eleições de outubro. E só através do prosseguimento da luta é que será possível sonhar com uma vitória real contra a corrupção, com todos os efeitos positivos que isto trará para a população.

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