Editorial - Convenção decisiva
A convenção nacional que o PMDB realiza amanhã converteu-se em peça importante no processo sucessório presidencial, diante da pressão interna de boa parte dos convencionais pela escolha de um candidato próprio à Presidência da República. Como o PMDB faz parte do Governo desde o início, tendo dado vital apoio ao Executivo com sua forte bancada na Câmara e no Senado, era natural esperar que, com a reeleição, o partido desse novamente seu apoio ao candidato Fernando Henrique Cardoso. Mas uma parte considerável do partido não pensa assim, inclusive seu próprio presidente. Amanhã saberemos se essa parte é maioria ou não e, não sendo, se o partido vai continuar convivendo com duas facções, uma contra e outra a favor do Governo e de si mesmo.
O PMDB tem pago um preço desgastante junto ao eleitorado por essa divergência no plano federal, ainda mais porque muitos peemedebistas opositores falam do Governo como se fossem membros de outro partido, do PT ou do PDT, e não do PMDB. Isto passa para o eleitorado desunião, falta de comando e indefinição política, ideológica e doutrinária. Nada que lembre, portanto, o partido que foi há 15 anos, quando comandou a multidão nas ruas e praças de todo o País em uma luta que resultou na derrubada pacífica da ditadura militar.
O velho PMDB merecia um destino diferente. Se de oposição, então que fosse inteiro para a oposição; se de apoio crítico, então que suas posições fossem claras e uníssonas, cumpridas por todos, questão por questão, assunto por assunto. O que não pode é o partido ser parte do Governo, dispondo de Ministérios importantes, e a cada momento ser contra e a favor ao mesmo tempo. Já seria esquisito ser contra; fica muito pior ser também a favor.
Em política quase nada é o que parece e nem sempre uma tendência indica um caminho. O PMDB, pelo apoio que deu diversas vezes ao Governo no Congresso e por ocupar Ministérios, está visceralmente ligado à atual administração. Mas alguns de seus líderes fazem-lhe oposição. As eleições vão se realizar dentro de sete meses, há problemas na economia e séria crise social, em consequência do desemprego nas cidades e no campo. A oposição tem, portanto, muito em que bater e os oposicionistas dentro do PMDB não querem perder a chance.
Para o PMDB, fazer campanha pela reeleição é uma opção complicada. O desgaste do presidente acabará se refletindo nas eleições estaduais e, sem dúvida, na própria composição do novo Congresso. Participando da coligação, o PMDB teria de se posicionar defensivamente, com todas as dificuldades decorrentes. E haveria problemas também nos Estados e na luta pelos votos para o Congresso. Fora da coligação, com candidato próprio, o partido teria uma situação mais confortável. Seria possível colocar-se em uma posição de crítica construtiva, sem fugir à responsabilidade por haver participado do Governo, mas deixando evidente que discorda de muitas coisas. Se isto iria convencer o eleitorado ou não, é outra questão.
É inegável, porém, que se o PMDB resolver lançar candidato próprio, o presidente Fernando Henrique Cardoso perderá um importante aliado em sua campanha por novo mandato. Continuará sendo um forte candidato, mas - e sabe disto - suas dificuldades de campanha serão maiores. A divisão das oposições talvez lhe dê a vitória no primeiro turno, mas ela ficará muito mais difícil se houver segundo turno. Até por isto, o presidente tem feito o possível (e um pouco mais) para derrubar a tese de candidatura própria do PMDB.
Também é certo que o futuro do partido está longe de ser um mar de almirante ou um céu de brigadeiro. O partido que derrubou os militares bem que gostaria que fosse. Mas qualquer decisão da convenção deixará sequelas. Alguns membros do partido já anteciparam que não aceitarão o que não atender aos seus anseios. A grande legenda, que começou como MDB, pode sair ainda mais dividida da convenção de amanhã.





