O fim da Guerra Fria prenunciava uma nova fase de desenvolvimento para a humanidade. Depois de 40 anos de tensão, época em que praticamente todos os países do mundo - especialmente os mais fortes - dispendiam bilhões de dólares com armas destrutivas, criando no período arsenais com capacidade para destruir a Terra por várias vezes, acabava, enfim, a pressão. A idéia era a de que, a partir daí, as grandes potências poderiam direcionar as fortunas que gastavam em armas para outras atividades. Também as nações menores, mesmo as não detentoras do poder atômico, mas que viviam se armando para ‘se proteger’ poderiam mudar os hábitos, direcionando as imensas verbas que usavam visando manter seus arsenais para ações capazes de resultar em benefícios aos seus povos.
Se isto de fato aconteceu com as nações mais poderosas (embora não com a intensidade esperada), não foi o que se viu na América Latina. Esta é a única região do mundo onde os gastos militares aumentaram em relação ao PIB nesta década. A conclusão é dos pesquisadores Eugenio Lahera e Marcelo Ortázar, da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), em um estudo no qual pedem um debate público sobre o gasto dos governos em defesa.
Os governos latino-americanos gastam uma média de US$ 1 em defesa para cada US$ 1,1 em educação e US$ 0,9 em saúde. O estudo ‘Gasto Militar e Desenvolvimento Econômico na América Latina’, publicado este mês no último número da revista da Cepal, inclui vários indicadores que mostram o efeito crítico dos investimentos em defesa. ‘‘Segundo a estimativa mais conservadora, a participação do gasto militar no gasto do governo central nos países da América Latina e Caribe alcança 9,7% na presente década e chegou a 8% só em 1996’’, informa o estudo. O gasto neste setor chega atualmente a US$ 45 bilhões na América latina.
Os pesquisadores observam que o aumento dos gastos em defesa em relação ao PIB e o crescimento das importações de armamentos em comparação ao gasto social configuram um quadro contraditório para uma região que quase não conheceu conflitos bélicos nesta década. Por razões de natureza política, observam Lahera e Ortázar, os gastos no setor são pouco analisados.
O estudo observa ainda que a América Latina é a região em desenvolvimento que tem o gasto militar mais baixo, embora tenha aumentado em relação ao PIB, entre 1990 e 1997. A importação de armas em 96 chegou ao seu maior nível desde o começo da década, e quase duplicou em relação a 94, embora tenham ocorrido acordos de paz na América Central. Os autores observaram que os conflitos militares nos últimos anos na região ocorreram na Colômbia, México e durante o confronto entre Peru e Equador. Na última Cúpula de Ushuaia, na Argentina, os presidentes dos países do Mercosul declararam zona de paz os seis países envolvidos no bloco: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia.
Quando a II Guerra Mundial terminou, um médico, que trabalhava na África, lançou um apelo simples: pediu que lhe dessem dois aviões bombardeiros (significando, na verdade, o custo daqueles monstros destinados a lançar morte) para erradicar a lepra daquele continente. Não conseguiu: a lepra, inúmeras outras doenças e a miséria continuam naquele pedaço do mundo. O que ressalta, porém, é perceber como a utilização para fins pacíficos dos recursos que se usam com objetivos bélicos seria positiva para mudar a vida dos povos. Seria não só útil, mas tremendamente importante que este conceito fosse percebido e adotado pelos governantes latino-americanos.

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