Dentre as numerosas contagens regressivas para uma série de eventos importantes (Copa do Mundo, ano 2000, quinto centenário da Descoberta e fim do milênio), deveria ocupar destaque maior a das eleições gerais de 4 de outubro. Afinal, faltam 152 dias para que o povo brasileiro vote para presidente, governadores, Câmara Federal, um terço do Senado e Assembléias Legislativas. Uma curiosidade, aliás, a atestar que pelo menos houve preocupação no sentido de reduzir um pouco os feriados nacionais: o pleito será dia 4, domingo, e não dia 3, data tradicional, que cai no sábado. De qualquer modo, são cinco meses, quase meio ano, tempo suficiente para muita coisa, mas que, conforme o modo de agir dos políticos brasileiros, vai acabar sendo curto demais, principalmente quando se sabe quanta coisa importante precisa ser resolvida neste País, em especial no campo da atividade pública.
Para esta semana, há importantes temas ocupando a pauta do Congresso Nacional. O Senado deve votar hoje a redação final da proposta de reforma administrativa. O Executivo volta a se mobilizar para tentar aprovar a reforma da Previdência na Câmara. O projeto entra em pauta hoje e pode ser concluído até quinta-feira. Enquanto isto, o Congresso realiza hoje sessão para votar as Medidas Provisórias necessárias para a aprovação plena das reformas. Assim posta a questão, a impressão é a mais positiva possível: com um pouco só de boa vontade, o Legislativo pode concluir importantes votações, deixando o caminho aberto para a conclusão das tão necessárias reformas estruturais que fazem parte do projeto político de estabilização da economia. Infelizmente, porém, a prática revela que o que parece simples se torna complicado quando as coisas dependem da ação do principal Poder Legislativo do País.
Excluindo o período de convocação extraordinária deste começo do ano, quando o Congresso deu mostras efetivas de disposição para o trabalho, adotando uma série de decisões em relação às reformas da Previdência e Administrativa, o que se tem visto desde o início da atividade do Legislativo, há quase 4 anos, é pouco em relação ao que o País reclamava. Pesou para o sucesso da recente convocação extraordinária o efeito do pacote de novembro, que com uma série de duras medidas tentou contrabalançar os perigos da crise asiática. A impressão que ficou era a de que os membros do Congresso, finalmente, haviam percebido a importância de seu papel, dedicando-se então a abrir caminhos capazes de garantir sucesso ao programa de estabilização da moeda. Todavia, no recomeço da atividade política, o que se viu foi, de novo, a inoperância e a falta de vontade de concluir o trabalho.
As decisões foram sendo empurradas e, não bastasse esta inapetência, as mortes do ministro Sérgio Motta e do deputado Luiz Eduardo Magalhães acabaram por complicar ainda mais todo o quadro. Agora, além da natural falta de vontade de concluir as reformas, há também a justificativa da falta de articuladores para lograr unidade capaz de levar à conclusão, pelo menos, das reformas que estão em pauta. E o pior é que o prazo vai se estreitando. Os 152 dias que faltam até as eleições não significam que o Congresso vai trabalhar todo este tempo. Ao contrário, envolvidos com as eleições, os parlamentares estarão cada vez mais ausentes dos plenários, repetindo uma situação no mínimo curiosa: para ganhar outro mandato, a fim de representar o povo, eles vão ficar alguns meses sem fazer nada, no final do mandato que já ganharam, há 4 anos. Uma situação que remete a uma frase antiga e dura: seria cômico, se não fosse trágico.

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