Confiança em queda
As dificuldades surgidas a partir de janeiro, com a desvalorização do real, e a crise política que se instalou nos últimos meses estão provocando uma queda na confiança do brasileiro, conforme os resultados da mais recente pesquisa CNT/Vox Populi, realizada em 24 unidades da Federação. Conforme o trabalho, observou-se nos últimos 12 meses uma queda na percepção dos entrevistados quanto ao desenvolvimento do País, a auto-estima do povo e a situação econômica pessoal.
Há um ano, 30% dos entrevistados acreditavam que o País estava progredindo, enquanto 16% tinham opinião oposta. Agora, apenas 17% acreditam na evolução, enquanto 33% pensam que o Brasil está caminhando para trás. Também quanto ao sentimento de orgulho de ser brasileiro houve uma queda, de 29% há um ano, para 18% agora. Já o total dos que diziam que este orgulho caiu, foi de 10% há um ano para 25% agora. Por outro lado, o índice dos que consideravam que sua situação pessoal e familiar estava melhorando caiu de 26% para 14%, em um ano. Em compensação, o número dos que diziam entender que o País estava piorando subiu de 34% para 44%. O cidadão também considera que a impunidade e a corrupção estão aumentando. No primeiro caso, o índice cresceu de 44% para 68%, e em relação à corrupção, de 55% para 80%.
São números que preocupam até mais do que os revelados pela mesma pesquisa e que indicam que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso está atravessando seu pior momento, desde que começou, há mais de 4 anos. A queda no prestígio do chefe do governo pode ser até considerada normal não só em face do desgaste decorrente das dificuldades atuais, mas em função mesmo do desencanto provocado pelas medidas adotadas em janeiro e que eram desmentidas pelo Executivo durante a campanha pela reeleição. Com efeito, ao lado dos problemas decorrentes da desvalorização da moeda e de outras dificuldades que a população sofre, vem também a impressão de que a população foi enganada para reeleger FHC.
A insatisfação com o presidente e com os políticos constitui, porém, um fator que pode ser considerado normal. A reação pessoal diante disto é que deve preocupar. É fora de dúvida que diante de certas dificuldades, principalmente a falta de emprego ou a existência de um trabalho que tem paga insuficiente para garantir uma vida decente, a auto-estima do cidadão cai. Entretanto, é mais perniciosa a percepção de que uma ponderável parcela da população está perdendo a esperança. O Brasil já enfrentou uma época assim, nos últimos meses do governo José Sarney, quando a impressão era a de que não havia comando e como resultado a população se mostrava descrente de seu próprio potencial.
A plena retomada da esperança ocorreu, sem dúvida, com o plano de estabilização lançado pelo governo Itamar Franco. A partir daí, o brasileiro ganhou consciência de sua capacidade e se tornou o agente maior da mudança que aconteceu na esfera econômica. Com os primeiros efeitos da estabilidade na economia, houve um crescimento no senso da cidadania, um avanço fantástico na percepção do povo e um crescimento na auto-estima do brasileiro. Estas são conquistas fundamentais e a queda em tais indicadores é efetivamente preocupante. O atual governo tem enorme responsabilidade diante deste quadro e precisa agir a fim de devolver ao povo o auto-respeito tão duramente conquistado nos últimos anos.

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