Editorial - Conferência da água
Mais de 80 países, representados por cerca de 60 ministros e 50 organizações não-governamentais, participam na sede da Unesco, em Paris, da Conferência Internacional sobre a Água e o Desenvolvimento Duradouro, inaugurada ontem. A reunião, proposta no encontro da Terra de Nova York no ano passado pelo presidente francês Jacques Chirac, culminará amanhã com a aprovação de um programa de ação prioritária para 1,5 bilhão de habitantes do planeta que não têm acesso a água potável. As recomendações, propostas em sessão plenária, serão submetidas em maio à sexta sessão da Comissão de Desenvolvimento Duradouro das Nações Unidas para que sejam concretizadas.
Embora as regiões mais vulneráveis à falta de água estejam situadas na África e Oriente Médio, a Ásia também enfrenta problemas de abastecimento, enquanto o leste europeu e vários países da América Latina sofrem com a poluição crônica de mananciais. A ministra francesa do Meio Ambiente, Dominique Voynet, que presidiu a abertura do encontro, insistiu na responsabilidade de administrar a água no mundo, assinalando que ela é um bem coletivo que não pode ser administrado como uma mercadoria.
Decorrente das discussões realizadas no encontro da Terra e dos demais debates já feitos em relação aos problemas ambientais, inclusive a Eco-92, esta conferência poderia ser chamada de um apelo real com vistas à sobrevivência do homem no planeta. Há preocupação cada vez maior no mundo com os recursos naturais vitais, como a água, o ar e o mar. Nos muitos séculos de civilização que já vivemos, o meio ambiente nunca foi agredido a ponto de se tornar um problema para a sobrevivência humana. Hoje, corremos o sério risco de sermos obrigados no futuro a mudar de planeta para continuarmos existindo.
O intenso uso dos recursos naturais, a poluição e a destruição do meio ambiente físico obrigam a humanidade a pensar sobre seu futuro de um modo diferente do que há cinco décadas, quando explodiu a primeira bomba nuclear. Lá temia-se que o mundo pudesse acabar num holocausto universal, de uma hora para outra, sem dor, apenas apertando-se botões. Hoje, temos de pensar que ativamos uma bomba de tempo não nuclear, mas igualmente mortífera, que nos matará a todos lentamente, dolorosamente.
Não é história, não é romance, não é cinema. O perigo é real e não é por nada que mais de 60 países estão presentes à reunião de Paris. Pior, o perigo é imediato. Mais ainda, já estamos em perigo. A destruição da camada de ozônio por gases industriais e de motores a combustão - em automóveis, caminhões, navios e aviões - aumentou extraordinariamente os casos de câncer de pele em todo o mundo. Já vivemos em perigo e a nova situação obriga a humanidade a mudar hábitos e costumes, tecnologias e objetivos econômicos.
Mas muitos governos fortes ainda tentam desacreditar os alertas de perigo, notadamente os dos países mais ricos do planeta, em total oposição ao que pensa e sente sua própria população. Os ecologistas, conservacionistas e todas as ONGs ligadas ao assunto têm que exacerbar os fatos para chamar a atenção e ser ouvidas. Mas isto não dá razão ao que esses governos alegam. A mudança do clima, o efeito estufa, a baixa qualidade do ar nas grandes cidades, a poluição da terra, do mar e do ar, a destruição da camada de ozônio não são invenções dos ecologistas. E atingiram uma tal proporção que a vida na Terra está realmente ameaçada.
A adoção de políticas globais para o meio ambiente terrestre e, assim, preservar os fatores vitais para a sobrevivência do homem no planeta, constitui um imperativo. O que se discute em Paris não é, apenas, algum tipo de tese aleatória, mas uma realidade concreta e palpável que deve merecer atenção e cuidado por parte de todos, especialmente dos governos, que têm o poder maior capaz de mudar essa realidade. Mas a população, os agricultores, os industriais e outros setores econômicos, no Paraná assim como em todo o Brasil e no mundo, também têm um dever a cumprir, em nome de sua própria sobrevivência.





