Editorial - Comentário ofensivo
Comentário ofensivo
A idéia básica da democracia é a de que o poder é exercido pelo povo. Isto significa que os que dirigem o país saem exatamente do meio da população, vivenciam seus problemas, conhecem seus dramas, partilham de seus anseios e, portanto, são capazes de enfrentar desafios e buscar soluções compatíveis com as necessidades. É diferente da situação das aristocracias, em que o poder é exercido por uma camada privilegiada (que se considera escolhida por Deus e que não tem qualquer vinculação com os súditos), dedicada a seus próprios interesses e sempre distante do sofrimento da massa. Esta dissociação foi magistralmente colocada pela frase famosa de Maria Antonieta, rainha de França, quando informada que o povo estava revoltado e clamava diante do palácio porque não tinha pão. Na ignorância de quem desconhece o drama da população, a rainha, que acabou sendo decapitada na subsequente Revolução Francesa, lançou a célebre (e infeliz) indagação: Se não tem pão, por que não comem brioches? Não era humor negro, apenas ignorância. Com a democracia, acredita-se, isto não acontece. O presidente, os governadores, os prefeitos, deputados, senadores, vereadores, todos, enfim, que governam, fazem parte do povo. Também estão neste caso os que ocupam cargos na administração pública.
O comentário feito pelo diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, sr. David Zylbersztajn, sobre o preço da gasolina, no Brasil, lembra um pouco a citada rainha francesa. Segundo ele, a gasolina não é cara no Brasil. E, mostrando estar em dia com a situação no exterior, foi taxativo ao enfatizar que a gasolina subiu muito mais nos Estados Unidos do que aqui. Deixando ainda mais evidente a plena alienação sobre a realidade, o sr. Zylbersztajn, que é genro do presidente da República (o que, eventualmente, nos remete aos critérios aristocráticos de escolha dos auxiliares governamentais), afirmou que não há como comparar o poder aquisitivo de quem tem carro com o de quem compra feijão no mercado. E foi além nesta linha de raciocínio, lembrando que carros custam caro e que quem os adquire ou possui, naturalmente, tem condições para arcar com preços mais altos para o combustível que os alimenta.
Comparar preços entre produtos aqui e nos Estados Unidos é mais que estupidez, evidencia ignorância. Não poucos políticos já o fizeram, no passado, mas a resposta do povo simples é final: ora, o salário do brasileiro é bem menor que o do norte-americano, para abordar apenas um dos inúmeros aspectos de uma questão como esta. Esse quadro lembra também outro comentário alienado de um ex-deputado federal do Paraná (felizmente não reeleito), que diante da grita popular sobre os elevados proventos dos parlamentares saiu-se com esta pérola: Não são os deputados que ganham muito, o povo brasileiro é que ganha pouco. Acontece que, em qualquer caso, os que são eleitos para governar e os que ocupam cargos na administração têm justamente a obrigação de trabalhar para melhorar a situação da população, em todos os níveis. Entretanto, só o podem fazer se não perderem o vínculo com o povo, a percepção de que estão comprometidos com o bem-estar e as necessidades da comunidade. Devem buscar soluções e não desculpas deslocadas, esfarrapadas e até ofensivas.
A democracia é, como definiu Abraham Lincoln, o governo do povo, pelo povo e para o povo. Importa que os políticos não esqueçam sua origem e seu compromisso. O que não parece não acontecer com o sr. Zylbersztajn, que estaria melhor gerindo a questão energética nos Estados Unidos.





