Editorial - Combustíveis mais baratos
Ainda estão presentes na memória do País as cenas vividas praticamente todos os meses pelos motoristas, que corriam aos postos de combustíveis para abastecer os carros antes do aumento que iria vigorar a partir de zero hora do dia seguinte. Era a época de uma inflação cada vez mais descontrolada, em que todos, ainda que à última hora, tentavam levar alguma vantagem ou pelo menos reduzir o prejuízo. O preço dos combustíveis era um verdadeiro exemplo de tudo o mais, até porque em função do efeito da alta a indexação inflacionária seguia em ritmo cada vez mais intenso, sempre para cima.
Com a estabilização da moeda, as coisas mudaram, inclusive em relação aos combustíveis. Os aumentos deixaram de ser tão frequentes, houve alterações profundas no sistema, que permitiram até que os postos oferecessem preços e condições variáveis, estabelecendo a tão importante concorrência. E agora, coroando tudo isto na nova fase de desregulamentação do mercado de petróleo, anuncia-se redução nos preços tanto do diesel quanto da gasolina. O primeiro, que ainda tem o valor tabelado, vai ficar em torno de 3% mais barato. A gasolina dependerá de uma série de fatores, mas deve cair também entre 1% e 3%. E, ao contrário do que acontecia no passado, como alguns postos estão anunciando que só vão poder reduzir os preços na próxima semana, ao fim dos atuais estoques, ao invés da corrida para abastecer antes da alta há o cuidado para esperar um pouco, aguardando a baixa.
A partir de agora, segundo se informa, os preços dos derivados de petróleo serão regidos pelo mercado internacional. A primeira consequência é a redução nos preços, porque havia uma diferença entre o valor do produto lá fora e o que as distribuidoras pagavam internamente. Quanto ao que ocorrerá no futuro, é difícil prever. Se os preços do petróleo no mercado mundial permanecerem estáveis, o valor não sofrerá mudanças. Caso caiam, novas reduções de preços podem acontecer. O risco, claro, é o de haver uma crise mundial, que pode levar o petróleo às alturas, o que terá reflexos por aqui. Todavia, este é um perigo não tão grande porque, até agora, quando o petróleo subia lá fora, o brasileiro pagava o preço; quando caía, por aqui não havia redução alguma. Ao menos agora, a situação é diferente.
Independente, porém, do que ocorra no futuro, o fato real e sem dúvida relevante é o desta redução, que sinaliza de modo claro que o programa de estabilização está, efetivamente, seguindo no rumo certo. Não se desconhece o peso do preço dos combustíveis na composição do custo de vida, o que significa que a baixa deve ter reflexos positivos na redução inflacionária. As previsões feitas esta semana relativas à possibilidade de a inflação brasileira ficar, este ano, em nível até inferior à dos Estados Unidos, não são ilusórias, mas palpáveis. E a tendência de se observar redução ainda maior nos preços em geral também é natural, a partir mesmo desta nova situação criada com a desregulamentação da política petrolífera.
O que se faz necessário, na sequência, é a persistência no trabalho visando a auto-suficiência energética no País, seja através de uma política de prospecção maior para ampliar as reservas petrolíferas internas, seja pela exploração de formas alternativas de produção de energia. Com isto, será reduzido o risco de efeitos danosos caso haja alterações profundas no mercado internacional, ao tempo em que o próprio País se fortalecerá, já que a posse de energia constitui, sem dúvida, um fator vital da própria autodeterminação nacional. São passos importantes que precisam ser dados para garantir, inclusive, a continuidade da política de estabilização econômica.





