Na Cúpula das Américas, que se realiza no Chile esta semana, o tráfico e o consumo de drogas serão um dos temas mais importantes, não só para os países envolvidos mas para todo o mundo. Será feita uma tentativa para se estabelecer uma estratégia continental de combate ao narcotráfico. Até hoje, o que se conseguiu fazer foram ações isoladas e (EUA e Colômbia, por exemplo) trocas de informações entre as polícias dos diversos países, especialmente com o Departamento de Combate às Drogas (DEA) dos Estados Unidos.
A iniciativa é bem-vinda e vem atrasada. E é, também, limitada, pois o narcotráfico representa, há muito tempo, um dos mais sérios desafios para a sociedade humana em todo o planeta, não só nas três Américas. Movimentando bilhões de dólares, o comércio das drogas desafia todos os governos, todas as polícias, todas as comunidades organizadas. Com seus tentáculos atingindo o mundo, qualquer tipo de ação que se pretenda executar contra o narcotráfico só pode ter sucesso se houver ação comum e muito forte de todos os países.
O projeto que se discutirá no Chile deve ter o apoio de todos, mesmo que não seja completo. Ainda existem divergências entre os países sobre questões como soberania e sigilo bancário que impedem a elaboração de um bom projeto imediatamente. Mas é na direção da quebra do sigilo bancário nos chamados ‘paraísos fiscais’ e da cooperação policial e militar que os países interessados devem trabalhar.
O crime organizado não será derrotado por ações isoladas de um ou outro país, nem do mais forte deles, como já se viu nos últimos anos. O comércio de drogas nos Estados Unidos é maior hoje do que há dez anos. O que está faltando à sociedade organizada é a percepção de que há certos problemas que só podem ser enfrentados pela ação conjunta e comum. Não há comprometimento de soberania nisto, mas soma de esforços num quadro de ‘‘guerra’’ das máfias das drogas para subjugar o poder estabelecido aos seus interesses.
As quantias envolvidas no narcotráfico são maiores do que os orçamentos de muitos países e as máfias têm total liberdade para movimentar esse dinheiro através do sigilo bancário. Com essas facilidades e mediante as armas e a corrupção, podem fazer o que quiserem para expandir seus ‘impérios’. Países sérios não podem servir de valhacouto para o crime e devem ser convocados a juntar-se à luta de todos.
Em alguns países, inclusive o Brasil, fala-se em descriminalizar drogas consideradas mais leves, como a maconha. Mas se algum país fizer isto, será praticamente impossível combatê-la no restante do planeta, pois o lugar em que for legal será a base de produção e distribuição, quebrando-se a possibilidade de uma ação real contra ela.
Falar no direito à liberdade de escolha para se drogar é o mesmo que divulgar técnicas para o suicídio através dos meios de comunicação e facilitar oficialmente os meios para que as pessoas pratiquem ou não o ‘direito’ de se matarem. Que tipo de sociedade poderia sustentar-se numa base dessas? Assim também, o acobertamento do dinheiro sujo nos países financeiramente permissivos equivale à cumplicidade no crime, destinando-se ainda uma gorda comissão de prêmio aos criminosos.
Mesmo ações continentais, como esta que se anuncia para as Américas, terão validade discutível se outros continentes não fizerem os mesmos esforços. A reação de todos deve ser tão ou mais forte que a ação do crime organizado. E, para usar uma palavra da moda, mas pertinente, deve ser globalizada. Da sua eficiência dependerá a sobrevivência da juventude, dos adolescentes e até da infância no mundo, pois até aí já chegaram os tentáculos do tráfico. Está em jogo, portanto, a sobrevivência da própria sociedade.

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