Editorial - Combate ao desperdício
No lançamento do Programa Estadual de Melhoria da Qualificação de Produtos Hortícolas no Paraná, realizado sexta-feira, precisamente no Dia Mundial da Alimentação, foi abordado um problema dos mais sérios: a perda de hortifrutigranjeiros, desde a propriedade até o varejo, que acarreta um prejuízo anual de 600 mil toneladas, num valor estimado de 300 milhões de reais. Se este dado por si chega a ser assustador, face ao volume, a questão se torna ainda mais grave quando se percebe que esta pode ser considerada apenas a ponta do iceberg diante do desperdício que acontece em toda a produção agrícola e, também, em quase tudo o que cerca o ser humano.
Em verdade, o desperdício parece fazer parte da cultura humana e, em especial, da vida do brasileiro. O Brasil, por suas próprias características, produz uma sensação de tamanha magnitude e dá a idéia de uma riqueza tão vasta (que realmente existe) que acaba até, de certo modo, por estimular o desperdício. Há tanta terra, tantas possibilidades, que não parece ser necessário adotar uma forma de agir mais cuidadosa e cautelosa. Se isto pode não ter sido um problema perceptível no passado, hoje as coisas estão mudando e a quantificação das perdas na lavoura, na comercialização, dentro de cada casa, isto só para observar coisas importantes em relação à alimentação (e portanto à vida), revela números estarrecedores.
O Brasil perde hortifrutigranjeiros, perde soja, perde arroz, perde café, perde tudo, joga fora, literalmente, milhões de toneladas de alimentos enquanto uma parcela ponderável de sua população (e também da população mundial) vive em condições miseráveis. É muito conhecida, aliás, a frase segundo a qual o brasileiro morre de fome sobre uma terra fértil, capaz de lhe garantir sustento e até riqueza. A terra é fértil, mas não é trabalhada corretamente. E, o que é pior, o resultado do trabalho ainda é posto fora de uma forma que pode ser considerada até irresponsável.
O Programa agora lançado no Paraná, cuja importância pode ser aquilatada pela simples observação do total do desperdício no setor, precisaria ser ampliado em todos os sentidos: quer dizer, o ideal seria que todos os setores produtivos no Paraná e no Brasil fossem envolvidos neste trabalho, com ênfase para a necessidade de se adotar medidas concretas visando eliminar os focos destas perdas. Talvez seja utópico até esperar que houvesse um trabalho capaz de acabar de vez com o desperdício. Todavia, diante do volume das perdas é certo considerar que uma recuperação em nível de 70% a 80% representaria uma fortuna, em dinheiro, e menos fome para milhões.
O outro lado da questão envolve não apenas o setor produtivo, mas toda a população, pois é certo que desperdício é uma prática que atinge praticamente toda a vida das pessoas. A conscientização da cidadania, que cresce no Brasil, pode envolver também a percepção sobre o papel importante de cada um na luta contra o desperdício que ocorre nas residências, nos escritórios, nas ruas. O brasileiro joga fora tudo, desde a água da torneira, à energia elétrica, passando por praticamente tudo o que usa para sua vida.
Mudar esta forma de agir, individual ou coletivamente, reclama sem dúvida um trabalho muito amplo de reeducação. Por mais difícil que isto possa parecer, os resultados decorrentes podem ser fantásticos, melhorando de modo positivo o cotidiano de milhões de pessoas. É uma mudança de comportamento importante para enfrentar as transformações que a vida humana vem enfrentando neste fim de século.





