Editorial - Combate à miséria
Discursando na sessão de encerramento da assembléia anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, ontem, em Hong Kong, o presidente do Bird, James Wolfensohn, exortou a comunidade internacional a agir imediatamente para se diminuir a pobreza no mundo. Não esperemos mais, vamos focalizar este tema agora, porque esperar não adianta nada, disse Wolfensohn, retomando o tema que havia colocado sobre a mesa na abertura da assembléia. Segundo ele, no Banco Mundial predomina um verdadeiro sentimento de urgência sobre a necessidade de se realizar ações profundas para reduzir a miséria e a desigualdade entre ricos e pobres.
Dirigindo-se novamente aos ministros das Finanças, presidentes de bancos centrais e outros altos funcionários dos 181 países membros do FMI, Wolfensohn insistiu: Como líderes de todos os setores do mundo, temos de agir agora mesmo. Repetindo o que já dissera na abertura da assembléia, disse que a crescente brecha entre ricos e pobres é uma bomba-relógio que pode explodir no rosto de nossos filhos. E assinalou que os privilegiados podem tentar se isolar, mas isto seria como se condenarem a si mesmos e seus descendentes a viver isolados, armados e assustados.
O Banco Mundial fez da diminuição da pobreza sua primeira prioridade e neste contexto está enfatizando programas sociais, como educação e saúde, com uma perspectiva de médio e longo prazos. Creio que conseguimos colocar sobre a mesa os temas que nos preocupavam, expressou em entrevista à imprensa, mencionando novamente a questão da pobreza e a necessidade de incluir os pobres no processo do desenvolvimento econômico, sempre com ênfase na importância de se buscar soluções concretas, locais, regionais e até mundiais, para realizar este trabalho.
A preocupação dos maiores financistas do mundo com a miséria que ainda domina grande parte do planeta é um fato recente. Antes isto estava limitado a manifestações humanitárias de uns poucos. O lucro a qualquer preço não é mais o padrão do capitalismo internacional, embora esta visão ainda resista nos países do Terceiro Mundo. É uma evolução similar à de alguns dos precursores da revolução industrial nos Estados Unidos, para os quais o desenvolvimento nunca seria sólido bastante se não envolvesse a grande maioria da população. Henry Ford queria fabricar automóveis que pudessem ser comprados por seus operários. Com isso teria um mercado muito maior do que a parcela de ricos existente em sua época.
No mundo atual, a situação é mais complexa e os desníveis são maiores. A preocupação do presidente do Banco Mundial é um alerta e um ato instintivo de autodefesa do sistema capitalista, pois se o fosso entre ricos e pobres e entre as nações mais avançadas e as mais atrasadas continuar a aumentar, em vez de diminuir, a explosão poderá ser inevitável. Wolfensohn não disse, mas para isso é preciso que o mundo rico pague melhor o que compra do mundo em desenvolvimento, renunciando às práticas comerciais restritivas e protecionistas que tantos prejuízos causam aos países exportadores do Terceiro Mundo.
Mas o alerta é importante por sua dramaticidade. Urge acabar com a miséria porque ela é uma ameaça de explosão que já se prenuncia. A violência já se instalou em muitas partes do mundo e não se pode perder tempo. É preciso começar logo, em toda parte. É possível, ainda, reduzir a miséria sem ter antes que enfrentar uma guerra. É possível fazer tudo com lei e ordem, desde que com inteligência, vontade e celeridade. O respeito à lei é vital para que se faça tudo com justiça e respeito aos direitos fundamentais. A anarquia só vai gerar mais violência, desigualdade e injustiça.





