A Justiça Eleitoral tem feito uma campanha intensa no sentido de orientar os eleitores, principalmente no que se refere ao uso da urna eletrônica. Trata-se, na verdade, de iniciativa necessária por várias razões. Primeiro, porque a nova forma de eleição será usada este ano em muito mais municípios que no passado, atingindo, portanto, um número maior de eleitores. Depois, por causa do acúmulo de escolhas no pleito de 4 de outubro. Os eleitores terão de votar para cinco diferentes postos, desde o presidente, passando por governador, senador, deputado federal e estadual. São muitas eleições simultâneas, muitos candidatos a considerar, uma série de números a conhecer, além do desafio da máquina em si.
O sistema da urna eletrônica é não só seguro, mas também rápido. Com ela, a apuração se faz rápida e eficientemente. Entretanto, o uso da urna demanda do eleitor uma forma de agir que não é costumeira. Dizer que hoje muito mais gente está habituada às máquinas que pululam por aí, inclusive os caixas eletrônicos dos bancos, é observar parte da situação. Para perceber que a existência de muitas máquinas não prova melhoria na forma de seu uso é só passar por alguns bancos e ver os problemas que muitos usuários enfrentam. Há estabelecimentos que, inclusive, mantêm funcionários apenas para dar assistência aos correntistas que vão usar tais máquinas. E há também uma enorme preocupação porque os vigaristas e espertalhões igualmente se posicionam em tais locais, procurando oportunidades para agir. Oferecem ‘ajuda’ e, com isto, tomam conhecimento de senhas, podem substituir cartões, enfim conseguem ludibriar os incautos e, não poucas vezes, lesá-los.
Naturalmente, não há ‘espertalhões’ junto às urnas eletrônicas e, até por motivos óbvios, o eleitor não corre o risco de ser roubado ali. Todavia, é inquestionável que, para a vida de um povo, o voto é até mais importante que o dinheiro que pode ser furtado em um caixa eletrônico de banco. Do mesmo modo, também é possível perceber os mesmos meios que existem para fraudar a vontade do povo nas urnas convencionais estão presentes também nas urnas eletrônicas. A Justiça Eleitoral, inclusive para facilitar o voto, permite que o eleitor leve uma ‘cola’ para votar. O termo, tirado de uma prática escolar não muito aceitável, se ajusta e significa que o eleitor pode ter com ele ao chegar à urna um papel em que estão escritos os números dos candidatos em que vai votar.
É neste ponto que pode acontecer a adulteração da vontade. Assim como no passado (e mesmo agora), há quem receba de ‘cabos eleitorais’ cédulas prontas para votar, também pode haver quem entregue aos eleitores de urnas eletrônicas ‘colas’ prontas com números que talvez não sejam os dos candidatos de sua preferência. Isto sem falar dos que sequer vão saber em quem votaram, aceitando as indicações com a mesma passividade com que no passado recebiam ordens para votar neste ou naquele ‘coronel’.
Naturalmente, isto não é culpa da urna eletrônica e nem se pode pensar em mudar o sistema, voltando a antigas práticas por causa do temor deste tipo de adulteração. A questão é mais séria e mais profunda. Qualquer que seja o sistema de voto, ele só será perfeito e à prova de fraudes, de manipulação, de imposições a partir do desenvolvimento do povo, em todos os sentidos, o que inclui o cultural. Um povo culturalmente preparado não só saberá votar em qualquer urna, mas também será imune a manipulações, a golpes, a truques de qualquer espécie. Junto com a evolução da urna eletrônica, é preciso pensar na evolução do eleitor.

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