Apesar das pesquisas, que continuam a indicar que a maioria da população é contra qualquer punição ao presidente norte-americano Bill Clinton, devido ao caso com a ex-estagiária Monica Lewinsky, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos decidiu aceitar a denúncia e deu início ao processo para o impeachment do chefe do Executivo. Não se trata, naturalmente, da decisão final. O processo não significa que Clinton possa vir a ser o primeiro presidente norte-americano a sofrer este tipo de sanção (nos outros dois casos, o presidente Andrew Johnson, em 1868, não foi afastado graças a um voto, no Senado, e o presidente Richard Nixon renunciou antes da votação, em 1974). Todavia, a simples aprovação pela Câmara do processo, com o voto de toda a bancada republicana - que por si já garantiria a vitória - e com os votos de 31 democratas, constitui mais um problema para a administração dos Estados Unidos, além de dar a impressão de ser um tipo de confrontação do eleito em relação ao eleitor.
Como os Estados Unidos estão às vésperas de uma importante eleição legislativa, que se realiza a 3 de novembro, não são poucos os que consideram que a questão eleitoral teve ponderável peso na decisão. Clinton é democrata e o Congresso tem maioria republicana. A pressão contra o presidente pode resultar em aumento da maioria da oposição, que está se aproveitando do flanco aberto pelo presidente. Afinal, não se pode esquecer que o fato que originou o processo existe. Não se trata, como alguns ainda pensam, de uma condenação pelo fato de o presidente haver cometido atos imorais com uma jovem, mas da negativa, sob juramento, da autoria. Perjúrio é crime em quase todo o mundo e nos Estados Unidos muita gente leva isto a sério.
Curiosamente, porém, a decisão da maioria republicana de deflagrar o processo pode tornar o pleito de novembro quase que um tipo de plebiscito. Muito adequadamente, o próprio presidente disse recentemente que quer ser julgado pelo povo. Seguramente o será, embora de modo indireto. Com efeito, se houver uma avassaladora vitória republicana no pleito legislativo, isto evidenciaria, sem dúvida, o repúdio ao presidente. Por outro lado, se os democratas obtiverem resultado melhor que o de outras eleições, é certo que será possível considerar isto um tipo de pronunciamento indireto do eleitor em favor do presidente.
Não poucos observadores acreditam que Clinton possa até renunciar, para não enfrentar o vexame do impeachment, caso seu partido sofra uma derrota acachapante no pleito do próximo mês. Até agora, o chefe do governo dos Estados Unidos não confirmou este tipo de hipótese. E não se pode esquecer, também, que o mandato do presidente só corre perigo efetivo se a derrota for tão grande que os republicanos acabem conquistando mais de dois terços do Senado. De fato, para não perder o mandato o presidente precisa apenas de um terço dos votos na chamada Câmara Alta. Se seu partido conseguir este mínimo, Clinton estará a salvo.
Este é, porém, só um dos lados da questão. Clinton sabe que precisa mais do que o mínimo para preservar não só o mandato, mas a força do cargo. No fim, necessita mesmo é que esta decantada maioria contrária à sua punição se pronuncie de modo efetivo nas urnas, uma tarefa efetivamente difícil. Muitos dos que dizem ser a favor de Clinton não votam. Por lá, isto é natural, o voto é facultativo. Talvez como o outro presidente que enfrentou este drama, Richard Nixon, Clinton se veja forçado a fazer o apelo à ‘grande maioria silenciosa’ e não votante. Esta indeterminada maioria, que fala mas não vota, poderá fazer a grande diferença, garantindo ou não a conclusão do mandato do presidente Bill Clinton.

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