Editorial Cigarro e bebida Os brasileiros começaram a abandonar o tabaco em função, principalmente, das campanhas contra o cigarro, mas, por outro lado, estão consumindo mais bebidas alcoólicas. Este é o resultado de pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Prevenção do Abuso de Drogas, divulgada na semana passada. Foram entrevistadas 2.000 pessoas, em 24 dos 27 Estados brasileiros. Pelo levantamento, nos últimos 11 anos o número de fumantes caiu de 38,7%, em 1988, a 30% em 2000, dado considerado bastante significativo. O presidente da Associação, o médico e ex-deputado federal José Elias Murad, afirmou que os não-tabagistas são hoje a grande maioria. No total, 69% declararam não ter o costume de fumar, enquanto que 30% confessaram o hábito de fumar cigarros e apenas 1% o cachimbo. Segundo Murad, a pesquisa revela um dado estimulante, pois este hábito está caindo junto aos mais jovens. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos de idade, 76% disseram que não fumam, contra 24% que ainda fumam. Entretanto, a pesquisa traz um dado menos alentador sobre o consumo do álcool. O consumo de bebidas alcoólicas está aumentando entre os jovens com mais de 16 anos. Trinta e seis por cento confessaram o hábito de beber regularmente. Essa cifra passa a 44% entre os que têm de 24 a 29 anos. Fumar e beber são considerados, ainda hoje – apesar das manifestações e medidas antitabagistas –, ‘vícios sociais’ aceitáveis, ao contrário de outros, como o consumo de drogas, que são capitulados como crimes, ao menos no que tange à distribuição. Ainda assim, e talvez até por serem socialmente aceitos, ambos os vícios representam peso enorme para a sociedade, tanto no aspecto médico quanto na própria questão de segurança. Não se pode esquecer, por exemplo, da íntima ligação que existe entre o consumo de bebidas com os acidentes de carros e uma série de crimes. Em épocas como esta, do Carnaval, ao lado das campanhas contra a AIDS, são também significativas aquelas que objetivam limitar o uso do álcool ou, ao menos, evitar que os alcoolizados saiam por aí dirigindo veículos. Tanto o álcool quanto o fumo se situam atualmente entre os mais sérios males que afligem e ameaçam a humanidade, por seus efeitos diretos sobre a saúde e indiretos em relação à sociedade. Enfrentá-los é tarefa complexa, até porque existem poderosas indústrias envolvidas, tanto um como outro oferecem milhares de empregos e garantem enorme contribuição aos cofres públicos, através dos impostos. Pensar em tornar bebida e cigarro ilegais, como ocorre com outras drogas, também não é idéia adequada, bastando lembrar que nos anos 20 os Estados Unidos tentaram fazer isto com a Lei Seca (que proibia fabricação e comércio de bebidas), e o resultado foi tenebroso. Nunca o crime floresceu tanto como naquele tempo. O meio para enfrentar e superar os danosos efeitos destes vícios é o trabalho educativo, a constante difusão, por todos os meios, dos males produzidos por eles. Os efeitos deste trabalho já feito em relação ao cigarro são perceptíveis inclusive através da pesquisa já citada. A queda no consumo de cigarros pelos jovens tem muito a ver com as advertências e as campanhas existentes. Algo semelhante poderia ser feito também em relação ao álcool. Insistir nos efeitos deletérios do vício, juntamente com a própria propaganda dos produtos, como se faz com os cigarros, pode ser pelo menos um bom começo. E talvez salve milhões de jovens dos meandros de um vício hoje tão tranquilamente aceito pela sociedade.

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