A Cruz Vermelha lançou em seu informe anual, publicado em Londres, um grito de alerta para chamar a atenção sobre as chamadas catástrofes silenciosas: os milhões de mortos registrados anualmente por causa dos sistemas de saúde deficientes nos países do Terceiro Mundo. Enquanto terremotos e inundações monopolizam a atenção dos meios de comunicação e as organizações de caridade, as enfermidades infecciosas matam 13 milhões de pessoas por ano, de acordo com números do referido trabalho. A Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e a Meia Lua Vermelha estimam que bastaria uma ajuda prévia de cinco dólares para cada uma das vítimas a fim de evitar a maior parte dessas mortes. Comparativamente, as catástrofes naturais causaram entre 70.00 e 100.000 mortos em 1999, indica a Cruz Vermelha. Para dar uma idéia do alcance das catástrofes silenciosas também se pode indicar que a Aids, a turbeculose e a malária causaram seis vezes e meia mais vítimas do que as guerras desde 1945. Estas mortes, provocadas por enfermidades infecciosas, são registradas em 58% no segmento de 20% dos habitantes mais pobres do planeta. Esta proporção é comparada com a porcentagem de gastos públicos consagrados à saúde nos países de baixos recursos: 1%, quando a cifra é de 6% nos países ricos.
Uma nova forma de desastre, a dos sistemas de saúde pública, está surgindo por causa do abandono dos governos quanto às suas responsabilidades em termos de prevenção sanitária, vacinação, preservação do habitat e o meio ambiente, acusa o informe da Cruz Vermelha. Enquanto isso, as doações de emergência aumentaram pela primeira vez em quatro anos, mas o financiamento internacional para a saúde nos países em vias de desenvolvimento caiu a seu nível mais baixo desde 1991, cita o informe.
A Cruz Vermelha compara, da mesma forma, duas cifras americanas para o ano 1995, no qual os gastos com armamento alcançaram 864 bilhões de dólares, enquanto só foram destinados 15 bilhões de dólares em todo o mundo para a prevenção e o controle de Aids, tuberculose e malária. Para Peter Walker, funcionário encarregado das catástrofes na Federação Internacional da Cruz Vermelha, quando um mal como a Aids alcança as proporções que hoje podemos comprovar na África subsaariana, já não se trata de uma doença, mas de um desastre, lembrando que um problema de tal extensão destrói a força de trabalho e aniquila a economia.
A afirmativa segundo a qual uma ajuda prévia de cinco dólares para cada uma das vítimas seria suficiente no sentido de evitar a maior parte dessas mortes lembra apelo feito, nos anos 50, por um médico que pedia o valor de 2 aviões de guerra para acabar com a lepra na África. Não conseguiu estes recursos. E a comparação entre o que um país gasta com armamentos e o que os governos de todo o mundo investem na prevenção de males como Aids, tuberculose e malária, deixa evidente que ainda persiste a falta de sensibilidade ante a tragédia de milhões de vítimas de males que deveriam estar merecendo maior atenção dos responsáveis.
No Brasil, sabe-se, a situação não é diferente. Recente levantamento sobre a situação da saúde no mundo colocou o país em 125º lugar entre as nações do mundo, uma posição inaceitável inclusive face aos padrões de desenvolvimento econômico que se registra por aqui. O que falta, no Brasil como no mundo, é precisamente uma mudança de prioridades, com os responsáveis percebendo a necessidade de investir em saúde a fim de preservar a vida de milhões de pessoas, todos os anos. Esta deveria ser uma das prioridades de qualquer Governo que busque o melhor para seu povo.

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