Editorial - Campanha deflagrada
O lançamento da candidatura Ciro Gomes à Presidência da República antecipa o debate sucessório e produz uma nova situação política que vai complicar ainda mais o projeto das reformas. Por coincidência, ou não, o recém-lançado candidato do PPS, que foi ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, iniciou sua pregação batendo precisamente sobre as reformas estruturais que ainda não se realizaram e criticando veementemente os projetos em discussão no Congresso como medíocres, imprestáveis e fruto de barganha politiqueira.
Com a vigência da emenda da reeleição, que permite aos chefes de Executivo concorrer à própria sucessão, querendo ou não o processo sucessório já estava lançado. De fato, permitida a reeleição o político eleito presidente, governador ou mesmo prefeito já é, automaticamente, candidato à sucessão. Se o processo político, em termos sucessórios, não pára, porque é da essência da vida partidária, com este novo fator ele se torna ainda mais dinâmico. Isto só não aconteceria neste momento, mas somente no futuro, se o direito de concorrer à reeleição não valesse para os atuais detentores de cargos executivos. Como está valendo, o processo já se desencadeou.
Com isto, os pretendentes de outras legendas - ou mesmo dos partidos dos atuais chefes de Executivo interessados em disputar os cargos - ficam sob pressão. Se esperam para lançar os respectivos nomes, perdem um tempo que pode ser precioso na conquista de espaço. Mas se agirem precipitadamente, poderão queimar suas candidaturas. E há uma terceira pressão, do fato de o presidente e os governadores já estarem em campanha, mesmo se nada disserem a respeito.
Tudo, portanto, leva à antecipação de candidaturas e isto não é bom neste momento. As reformas, mesmo que seus textos não sejam o ideal, ficam seriamente prejudicadas. Pois quando os partidos começam a pensar em seus candidatos - e até o PMDB, um dos mais fortes membros da coligação que apóia o Governo, pensa em lançar um candidato próprio -, o Executivo vai se desviando de sua rota, puxado pelos interesses de cada um de seus componentes. E se até agora, com todo o apoio que contava, o Governo não conseguiu concretizar as reformas, tudo fica muito mais difícil.
Mas o sistema político é assim mesmo e não há como evitar que políticos se lancem candidatos, que partidos antecipem definições. O jogo é este e a liberdade faz parte de todo o sistema. Quem está fora do passo é o Governo, que até hoje não providenciou a aprovação das principais reformas e, no caso da tributária, nem o seu texto. E o Congresso tampouco fez sua parte. Ambos produziram a situação que se tem hoje.
As complicações para o lado do Governo, portanto, se devem a sua própria inação e não à precipitação da campanha sucessória. O governo que saiu das urnas de 94 com um maciço apoio popular perdeu a oportunidade de dar plenitude à execução do projeto de estabilização econômica. Faltando menos de três meses para o fim do ano, ninguém acredita que as reformas estruturais possam sair até lá. E com a antecipação da campanha eleitoral, também não deve acontecer nada no próximo ano, o que remete o processo para o final do século.





