Caminho simples
A popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, que vinha em queda livre praticamente desde o começo do ano (e de seu segundo mandato) até os últimos meses, registrou uma pequena melhora na mais recente pesquisa feita a respeito. Não por acaso, é possível perceber também que a situação da economia no geral começa a apresentar melhoras, existe um quadro menos pessimista, a população se mostra mais confiante em relação ao futuro e ao Brasil. Pretender que este otimismo está vinculado ao período (Natal e fim do ano são sempre ocasiões em que há uma expectativa melhor em relação ao futuro) é minimizar a questão. A verdade é que o Brasil enfrentou um duro ano, que começou com a desvalorização do real, o que provocou uma série de consequências e trouxe dificuldades adicionais para a população. Ao longo do ano, e na medida mesmo em que caia a popularidade do presidente, o brasileiro foi vivendo novos sacrifícios e desafios.
Uma situação acabava ligada à outra. Com motivos. O governo tem uma influência enorme sobre a economia e os fatos econômicos atingem profundamente o povo. As dificuldades surgiram com a desvalorização do real (uma medida do governo) e se tornaram ainda maiores por causa da política de juros (também decisão governamental) e às exigências do ajuste fiscal. Com isto, agravaram-se os problemas sociais, o desemprego se tornou maior, o poder aquisitivo do povo caiu. Na mesma medida e proporção, o prestígio do governo – e do presidente, que, afinal, é o nome principal do sistema –, foi caindo.
A mudança que se percebe no momento é também de cunho econômico. Percebe-se uma reação positiva no mercado, surgem empregos – ainda que temporários – a redução nos juros estimula o comércio, o que provoca uma espiral positiva no setor produtivo, aumenta o otimismo e o governo também se beneficia disto, com a melhora em sua popularidade. O fato de ainda ser pequena esta recuperação de um governo que há um ano se reelegeu em primeiro turno apenas deixa evidente que o povo, ainda que esperançoso, mantém sua reserva e espera por novos fatos. As boas perspectivas para o próximo ano precisam começar a se cumprir, sem o que, naturalmente, o prestígio do presidente poderá cair de novo.
Seria oportuno que o presidente percebesse esta íntima ligação entre o seu prestígio e a situação econômica. A população não se preocupa com fatos políticos, mas com questões que mais diretamente afetam seu bem-estar e sua vida. Pode-se considerar isto um defeito, talvez falta de elevação cultural, mas é possível entender bem a realidade de um povo que ainda não conseguiu o resgate pleno de sua cidadania. É muito difícil pensar politicamente com a panela vazia, sem emprego ou sem perspectiva. Ademais, e isto deveria ser observado com maior atenção pelos governantes, a maioria da população não está querendo esmolas ou benesses: o que a população quer, e as pesquisas o confirmam, é condição de trabalho, possibilidade de garantir o sustento próprio, a manutenção da família.
O otimismo com que tanto o presidente da República quanto boa parte da população encaram o próximo ano tem a mesma base: a percepção de que a economia está se recuperando, com o que será possível de fato iniciar uma etapa nova de desenvolvimento e progresso. Este caminho é o que precisa ser seguido pelo governo, que tem possibilidades de garantir as condições para a efetiva retomada do processo de aquecimento econômico, atendendo aos anseios e necessidades da população, que quer apenas trabalho e segurança para viver com tranquilidade e esperança.

mockup