Editorial
Camaleões da política
Em discurso feito ontem, em solenidade no Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique Cardoso definiu como ‘banda podre’ os parlamentares ‘‘que estão na base do governo, podem votar a favor, mas votam contra’’. FHC fez discurso muito aplaudido, logo após a fala do governador Antônio Britto, do Rio Grande do Sul. Britto fez referência à derrota do Planalto na votação de quarta-feira à noite, na qual o governo queria manter a idade mínima para aposentadoria de 60 anos para homens e 55 para mulheres. Fernando Henrique considerou que o resultado da votação ‘‘foi um alerta’’ e previu que ‘‘este brado vai levar os deputados a uma mobilização ainda maior para termos votação esmagadora na semana que vem’’. Ele afirmou que o dano causado quarta-feira pode ser reposto. ‘‘Não se preocupem. Eu tenho modos de repor. E vamos repor. O Brasil não vai parar pela vontade obstinada de ganhar a qualquer custo não sei o quê, ou melhor, perder a qualquer custo’’. Na opinião do presidente, o resultado da votação é fruto de ‘‘minorias que estavam obstruindo - ou da moleza de alguns setores da chamada base do governo que está se defendendo’’. E acrescentou: ‘‘E é bom que se defenda, porque banda podre é bom longe’’.
O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a conclusão da reforma da Previdência e seu aprofundamento futuro são necessários para a manutenção do plano de estabilização. Quem está votando contra a reforma está, na prática, votando contra o povo, contra o salário do trabalhador, disse ele. ‘‘Estão fazendo demagogia, as reformas são justas, acabam com privilégios’’. O presidente convocou os parlamentares para votar na próxima quarta-feira. Ele prometeu ‘‘informar ao País quem está votando contra o povo’’, e ressaltou que não quer o apoio ‘‘daqueles que não apoiaram o Brasil’’. FHC deu ainda um último recado em seu aplaudido pronunciamento: ‘‘Não há negociação aqui, não há mais nada para negociar. Essa palavra precisa ser abolida’’.
Ficam nítidas nas palavras do presidente o desencanto e a revolta diante não de um resultado negativo, o que seria comum numa democracia em que o Legislativo é independente, mas em virtude do que parece uma evidente traição. Em verdade, o governo tem, numericamente, apoio para fazer passar qualquer reforma pelo Congresso. Os parlamentares que formam os partidos de apoio ao Executivo somam número suficiente para isto. As derrotas quando surgem, principalmente como aconteceu na quarta-feira, decorrem é de evidente má-fé por parte dos que se beneficiam, como governo, mas preferem se omitir diante dos apelos por sua fidelidade.
A derrota governamental da quarta-feira, como bem salientou o presidente, pode ser revertida. Tudo em política tem condições de ser alterado. Todavia, o que ressalta em mais este tropeço é, precisamente, a falta de honestidade de políticos que não se mostram coerentes com suas posições. O membro da oposição tem justificativa quando vota contra propostas do governo. Mas quem participa dos partidos que apóiam o Executivo, não tem desculpa para a omissão, revelando-se um camaleão que efetivamente não merece o voto do eleitor.

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