Editorial - Bons ventos na Ásia
Quem disse que a Lua não tem nada a ver com a Economia?
Ontem, primeiro pregão do Ano Novo Lunar asiático, as bolsas do continente foram para a lua. Hong Kong subiu 14,3%: Cingapura, 13,7%; Indonésia, 14%; Tailândia, 12% etc. A súbita onda de otimismo dos investidores não tem relação só com a Lua. A Bolsa das Filipinas, por exemplo, vinda acumulando altas sucessivas nos últimos seis pregões, chegando a 25,9% positivos. E para contrariar os economistas que o presidente Fernando Henrique Cardoso chamou de palpiteiros na semana passada, o principal motivo de alta das bolsas asiáticas, ontem, foram os investidores norte-americanos e europeus.
Tudo isso é muito bom para o Brasil. Quanto mais rápido a Ásia se recuperar do tombo do ano passado, mais água fria será lançada na fervura dos boatos e boateiros, e dos analistas do caos. Estes prevêem - ou previam, até a semana passada - um segundo choque asiático, que se daria ainda neste semestre e seria devastador nos países emergentes, não só da Ásia como também, e principalmente, da América Latina. Em especial, o Brasil.
Se do lado do Pacífico o cenário melhora, do lado de cá o Mercosul avança, os Estados Unidos querem a participação de todos na Zona de Livre Comércio (Alca) e, no Brasil, as privatizações vão de vento em popa, enquanto as reformas finalmente começam a andar. Não todas, mas a da Previdência e a Administrativa - que devem sair já - podem fazer aparecer a Tributária, que nem no papel está. As privatizações, por sua vez, vão gerar cerca de R$ 32 bilhões de receita este ano e aliviar a União de um débito cavalar - em despesas e em investimentos.
O Brasil só vai se complicar se quiser. A permanência por tempo exagerado das altas taxas de juros, por exemplo, faria um estrago sem precedentes nas contas públicas. Só no último bimestre do ano passado, a conta de juros da União, Estados e municípios deu um salto de R$ 1,5 bilhão. Estava em R$ 3,5 bilhões num mês e foi para R$ 5 bilhões no mês seguinte, um aumento de 41,2%. Os bons ventos que começam a vir da Ásia podem fazer essa conta crescer bem menos este ano, se o Governo não for excessivamente cauteloso em baixar os juros.
O primeiro resultado disto seria o alívio geral da economia, não só do setor privado - estrangulado por juros escorchantes -, mas também do setor público. O segundo resultado prático é que isto seria o sinal inequívoco para o capital internacional tomar o rumo do sistema produtivo, e não do especulativo. Com as privatizações e abertura de setores tão fechados quanto o de telecomunicações e petróleo, não vai faltar o que fazer com o dinheiro aqui.
E para completar os bons ventos, o Deutsche Bank emitiu no fim da semana passada nota oficial desautorizando seu principal executivo para a Ásia, Kenneth Courtis, porque num discurso em Davos, na Suíça, dissera que o Brasil teria que desvalorizar o câmbio para não ser a bola da vez dos especuladores internacionais. O banco não disse com todas as letras, mas só faltou elogiar o Brasil pela rapidez das medidas tomadas e pela política de minidesvalorizações do real.
Depois disso, o Governo brasileiro deve explicar por que ainda mantém os juros nas nuvens, mesmo após a baixa da semana passada.





