A prisão, por ‘posse de agentes biológicos ilegais’, de dois norte-americanos que estariam se preparando para cometer um atentado com bactérias em Nova York pode, de imediato, oferecer mais base ao presidente dos Estados Unidos em seu propósito de atacar o Iraque. A crise no Golfo Pérsico, que está deixando o mundo, de novo, à beira da guerra, decorre precisamente da negativa do Iraque em permitir que inspetores da ONU verifiquem locais em que estariam sendo produzidas bombas químicas e bacteriológicas. Quando ameaça semelhante chega ao próprio território norte-americano, é comentário geral que Clinton está coberto de razão e deve usar a força contra o Iraque.
Uma análise mais profunda, porém, deixa evidente que a ameaça é muito mais séria e, também por isso, a resposta bélica não resolve o problema. Assim como dois norte-americanos estavam de posse de ‘agentes biológicos’ em seu próprio país, é fácil concluir que qualquer pessoa pode ter a posse disto. Para o Iraque, não seria difícil fazer passar pelas fronteiras agentes carregando os produtos com aparência tão inocente que poderiam ser confundidos com babás.
Assim como a guerrilha mudou os conceitos da guerra e como o terrorismo subverteu todas as idéias sobre conflitos entre povos ou pessoas, a guerra biológica obriga a mudar o modo de encarar este tipo de desafio.
Especialistas britânicos concordam que, apesar da indiscutível superioridade norte-americana, não existe qualquer solução militar para neutralizar o arsenal químico ou biológico de Saddam Hussein. Mais ainda, assinalam, os ataques diretos correm o risco de ser ineficientes e muito arriscados, ao contrário do que afirmam Washington e Londres. Os especialistas enfatizam, em primeiro lugar, que é muito difícil localizar os objetivos a ser bombardeados, principalmente por falta de informes confiáveis em um regime de caráter ditatorial.
Clandestinas e móveis, as instalações de pesquisa, de fabricação ou de armazenamento encontram-se espalhadas em zonas densamente povoadas e urbanizadas, incluindo Bagdá e seus arredores, de tal maneira que de novo se evoca a utilização da população civil como ‘escudo humano’. Além do mais, o objetivo é multiforme. Ogivas e invólucros são coisas que podem ser transportadas facilmente e as informações são armazenadas em disquetes.
Há que considerar, também, o alerta do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter de que se um míssil atingir uma fábrica de armas químicas ou biológicas, poderá liberar gases e bactérias capazes de causar uma devastação incalculável.
A guerra química e biológica pode ser tão ou mais perigosa quanto uma guerra nuclear. Seus efeitos não seriam tão fulminantes e universais quanto as explosões de ogivas nucleares múltiplas por todo o globo. Pela força nuclear o mundo inteiro poderia acabar em instantes, sem sofrimento, sem dor, somente a angústia de contar os minutos... Os agentes químicos e bacteriológicos, porém, causam destruição lenta e dolorosamente gradual.
Não são coisas que se deveria lembrar, no Brasil, quando estamos em plena folia momesca. Mas uma boa parte do mundo não está pensando em Carnaval neste momento, e sim na guerra. E justamente essa parte tem poder para destruir várias vezes o planeta, seja com bombas nucleares, seja com armas químicas e bacteriológicas.
Não só para sossego e diversão dos brasileiros, o mundo deve abandonar as armas e resolver suas diferenças na mesa de negociações. Pois a diplomacia é a única forma de manter a vida como a conhecemos neste mundo, para nós, para os norte-americanos, para os iraquianos, iranianos, judeus, árabes etc. Mais do que em qualquer outra época, o mundo vive hoje um tempo em que a única alternativa para evitar a destruição imediata da vida no planeta é a negociação, o entendimento, a diplomacia. Fora disto, é o fim da raça humana e talvez da própria Terra.

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