Editorial - Boatos e especulações
A impressão que se tem diante do noticiário especulativo, que começou a se multiplicar antes mesmo das eleições, não é a de que o Brasil está à beira do abismo, como disse o candidato Luiz Inácio Lula da Silva. O que se sente é que o país está despencando nele, sem qualquer remissão. Quando, duas semanas antes das eleições, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez um pronunciamento informando que o governo teria de adotar medidas sérias antes do final do ano para reequilibrar a economia, houve certa surpresa, não ante o anúncio, mas pela coragem. Com efeito, era o tipo de informação que poderia precipitar uma onda capaz de complicar as próprias possibilidades de reeleição do presidente. Todavia, como se percebeu, o sr. Fernando Henrique Cardoso pretendia esclarecer as coisas para evitar especulações.
O resultado das urnas, com o presidente conseguindo vantagem bem menos expressiva do que a esperada, mostra que houve um certo prejuízo eleitoral. O pior, porém, foi que o efeito desejado não surgiu. Ao contrário, nos dias subsequentes e em especial às vésperas das eleições, os boatos foram se ampliando. Houve até quem garantisse, isto dois dias antes do pleito, que na segunda-feira após as eleições o governo já estaria editando um pacotão de ajuste. Também não faltaram comentários relativos a acordos com o FMI, além de uma série imensa de outras especulações, culminando tudo com a dantesca declaração do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, publicada ontem, em que ele declara que o ajuste será gigantesco.
O brasileiro ainda não se curou totalmente da doença dos pacotes que, durante uma terrível época, infernizou a vida de todos. Ainda está muito presente na memória a abusiva decisão adotada no começo do governo Fernando Collor, confiscando do modo mais absurdo o dinheiro de todos (inclusive as economias das sagradas cadernetas de poupança). Antes, outros pacotes já haviam atingido o povo, sempre de surpresa, arbitrários, forçados. E isto já na época da redemocratização, evidenciando que na economia o país ainda vivia sob um tipo de ditadura.
As coisas mudaram, sem dúvida, com o Plano Real. Não houve choques, surpresas, congelamentos, truques, confisco de dinheiro. Uma eficiente engenharia preparou a mudança que representou uma tão desejada e aparentemente impossível solução contra a inflação galopante que assolava o país. Desde então, e até novembro do ano passado, o Brasil passou a viver uma outra situação. A crise da Ásia, porém, trouxe de novo à tona o pacote. Em face de um período perigoso, uma série de medidas foi adotada. Com isto, o país conseguiu atravessar o momento. Agora, porém, há nova turbulência em todo o mundo. Junto com os problemas, avolumam-se os boatos e a onda especulativa. Com o susto de novembro de 97, a população fica outra vez inquieta e preocupada. Está preparado o cenário para a ação dos profetas da sinistrose, que conseguem ter lucro com as dificuldades.
Cria-se com isto um quadro preocupante em que os boatos acabam produzindo uma ansiedade altamente prejudicial. A crise se alimenta da especulação, que acaba sendo beneficiada por antecipações como as do presidente do Banco Central, ajudada ainda pelos comentários da imprensa internacional, cheia, possivelmente, de boas intenções, mas desprovida de embasamento concreto. O resultado disto é um quadro pior até do que a realidade, capaz de por si só produzir mais dificuldades que as efetivamente existentes. É a hora de o presidente, já reeleito, assumir com firmeza o comando, tomando atitudes para acabar com a central de boatos e afastar a crise.





