Editorial - Boato a longo prazo
Por muito tempo proliferou no Brasil uma central de boatos, que funcionava diariamente e atingia seu auge às quintas-feiras, contribuía para intranquilizar a população e dava aos especuladores material consistente para aumentar seus lucros em meio à caótica situação econômica que o País vivia. A incerteza política e econômica fornecia combustível suficiente para dar credibilidade às mais estapafúrdias informações e era tão articulada a central que muitos boatos eram montados a partir do próprio centro do poder, onde havia figuras interessadas mais em tumultuar do que em resolver.
Só com o sucesso do programa de estabilização de 1994 é que este modo de agir foi perdendo força. Ainda no início do programa de estabilização, nos tempos da URV, a central fazia correr boatos que só interessavam aos opositores do plano, todos garantindo que tudo ia se acabar depois das eleições presidenciais daquele ano. A nova moeda teria pouco tempo de vida e seria soterrada por uma série de pacotes, absolutamente inevitáveis, tal como já ocorrera nos planos Cruzado, Bresser, Maílson e Collor. O programa não seria mais que um engodo eleitoral.
Infelizmente, havia um precedente para isto: o Cruzado, que no começo mostrou resultados espetaculares, no terceiro mês já fazia água e a partir de então foi prolongado artificialmente para garantir a vitória do PMDB nas eleições de 1986. Mas a situação era outra em 94 e os fatos o comprovaram. O Plano Real tinha fôlego para durar mais do que o necessário, se o cálculo fosse a vitória eleitoral do ex-ministro Fernando Henrique Cardoso. Só agora, três anos depois das eleições, é que o Plano sofre um abalo - aliás, o segundo, e ambos por fatores externos, um gerado no México e outro na Ásia.
O pacote de novembro, se não acaba com o Plano, desperta os boateiros de plantão que acabam de formular uma impressionante teoria: o Governo federal já teria preparado um novo pacote, mais impopular que o do mês passado, que seria anunciado depois das eleições de outubro do ano que vem! E a notícia, como todo boato bem-feito, é detalhada, contendo iniciativas destinadas, principalmente, a resolver o déficit da Previdência Social, que será muito maior até lá.
É espantoso como mudamos de patamar. Antigamente, os boatos eram para o dia seguinte. Hoje, o boato é para o fim do ano que vem! E a precisão é de cirurgião. É possível que o Brasil tenha de tomar medidas drásticas para evitar a quebra do sistema previdenciário oficial. Mas há um projeto de reforma tramitando no Congresso e com chances de ser votado em plenário bem antes do fim do ano vem.
Hoje, diante da possibilidade de eventos totalmente incontroláveis provocarem estragos imediatos nos quatro cantos do mundo, é absurda a antecipação de decisões que seriam tomadas 12 meses depois. Ainda mais quando, no que tange à Previdência, nem se sabe o que poderá resultar do projeto de reforma. Trata-se, na melhor das hipóteses, de uma conjectura que dependerá de muitos outros fatores. Inclusive, sem dúvida, do que vier a ocorrer na própria campanha eleitoral do próximo ano, com todas as suas nuances.





