Editorial - Bingos em debate
Bingos em debate
A denúncia contra o atual diretor de Administração e Finanças do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp), Luiz Antônio Buffara de Freitas, de ter criado um balcão de atendimento a clientes especiais para autorizar bingos, e que veio acompanhada do pedido para afastamento de Buffara do governo, fechamento de seis bingos no Distrito Federal e punição de empresários supostamente ligados à máfia italiana, representa apenas uma parte de ampla questão. Trata-se de um caso com profundas e complexas ramificações e que pode acabar respingando sobre o próprio ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, chegando mesmo ao presidente da República. Além da ação, a Câmara e o Senado decidiram convocar servidores do Indesp para explicar as acusações de irregularidades e o presidente da República agendou para hoje um encontro com o ministro Greca para tratar do assunto. A ação acusa o Indesp de atender a interesses escusos ao ter baixado duas portarias uma delas no ano passado regulamentando a modalidade de bingo eletrônico, considerada ilegal pelos procuradores do Ministério Público, segundo quem as medidas contrariam a Lei Pelé e sofreram a influência de integrantes da máfia italiana para abrir o país às máquinas de bingo.
Não é de estranhar a denúncia, nem sequer o propalado envolvimento de um braço do crime organizado mundial em relação ao assunto. O jogo, em si, por mais que se tente fantasiá-lo ou transformá-lo em meio de captação de recursos com finalidades sociais, é pernicioso. O Brasil, de modo geral, assim o considera, o que explica porque, em tese, a jogatina é proibida no país. Com efeito, apesar de todas as tentativas já realizadas, os cassinos continuam proibidos vale lembrar que foram fechados em 1945, à época da redemocratização que se sucedeu ao período Vargas. Igualmente outras modalidades de jogos são proibidas, incluindo o famoso jogo do bicho, uma das mais conhecidas contravenções nacionais, aceita em certos casos mas ainda ilegal.
O que é paradoxal neste país em que o jogo é ilegal são as múltiplas loterias oficiais existentes, desde a Federal até as de números e de futebol, uma infinidade de ofertas a movimentar milhões. Discutir esta incoerência é possível, mas dificilmente será possível pensar em acabar com esta série de jogos, até diante das justificativas dos fins sociais das receitas auferidas. É certo que a existência de todas estas loterias tornou mais fácil a idéia de se criar os bingos, ainda mais diante da justificativa relativa à finalidade dos lucros em benefício do esporte. E bem que o esporte brasileiro, em especial o amador, precisa de ajuda, inclusive para ser uma alternativa a milhares de jovens desamparados. Entretanto, quando o jogo entra em cena, fica sempre difícil evitar a corrupção pelo vulto em recursos que movimenta e pelo interesse dos numerosos grupos do crime organizado.
Como, porém, uma questão não invalida a outra, a existência de loterias oficiais não muda a realidade da proibição do jogo no país. Ademais, os fatos que estão sendo apresentados sobre a questão dos bingos e que já chamaram a atenção também do Congresso são preocupantes. Os indícios a respeito de ação criminosa e do envolvimento da máfia italiana seriam suficientes para se exigir uma investigação plena do assunto. A oportunidade é esta e interessa ao próprio governo que se verifiquem as acusações, punindo a todos os que estiverem, comprovadamente, tirando proveito indevido do assunto. Por oportuno, seria também conveniente reavaliar todo o assunto dos bingos, que proliferam no país e que não parecem estar beneficiando o esporte ou entidades sociais, o que seria a razão para sua existência e funcionamento. É hora de fazer uma limpeza plena que talvez revele muita sujeira escondida.





