Em um dos pronunciamentos feitos para justificar os bombardeios contra a Iugoslávia, o presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos, pretendeu usar a História como escudo ao enfatizar que foi a falta de reação mundial a atos francamente bélicos e cruéis que provocou as duas guerras mundiais. Segundo Clinton, se o mundo houvesse reagido com firmeza antes do crescimento da onda belicista na Alemanha, tanto em 1914 quanto em 1939, as grandes guerras não teriam acontecido e a história do mundo seria diferente. Com efeito, diz-se sempre que a humanidade precisa aprender com os erros do passado, para não repeti-los. Entretanto, e por mais que se conteste atitudes como as de Saddam Hussein, no Iraque, ou Slobodan Milosevic, na Iugoslávia, é duvidoso comparar as situações atuais com as que vigoravam no começo ou no meio do século no mundo. Do mesmo modo é questionável aceitar os bombardeios desfechados contra a Iugoslávia agora, assim como os ataques que continuam a ser realizados contra o Iraque, como instrumentos para evitar tragédias maiores, um tipo de ação preventiva destinada a evitar que o mundo vivencie guerras similares às de 1914 ou de 1939.
A verdade é que é difícil encontrar justificativas para este novo espetáculo de destruição que a Otan (junto com os Estados Unidos, naturalmente) oferece, agora na Europa. A inegável preocupação com a situação dos albaneses de Kosovo não chega a ser suficiente, até porque a antiga Iugoslávia protagonizou, nos últimos anos, acontecimentos tão ou mais sérios que os que se observam agora. Os choques entre sérvios e croatas, quando a Iugoslávia começou a se desintegrar, as atrocidades cometidas na Bósnia, entre outras coisas, foram tão tenebrosas como alguns dos crimes cometidos durante a 2ª Guerra Mundial. No entanto, houve paciência e disposição para se buscar acordos, embora o sofrimento dos moradores da Bósnia tenha sido sem dúvida terrível enquanto os diplomatas procuravam o entendimento. Se foi possível buscar a solução negociada lá, é crível considerar que, se houvesse vontade, a alternativa bélica adotada não teria sido necessária.
O problema é tanto mais sério porque o que se observa ali é uma ingerência externa verdadeiramente abusiva e que é feita sem sequer levar em conta o organismo que, em tese, representa o mundo. De fato, a ONU, organização da qual a Iugoslávia faz parte, não foi sequer considerada: Estados Unidos e Otan resolveram por conta própria, ameaçaram, exigiram, insistiram e atacaram, apresentando como justificativa a negativa do presidente iugoslavo em aceitar os termos de uma negociação externa. Sem dúvida, a atitude do presidente iugoslavo é abusiva, assim como a agressão aos moradores de Kosovo é inaceitável. Entretanto, provoca temores o fato de que elementos externos se arroguem o direito de intervir belicamente para impor seus ditames.
Os comunistas da antiga Alemanha Oriental compararam a ação da Otan na Iugoslávia ao ataque repentino dos nazistas a Belgrado, em 1941, além de afirmarem que os Estados Unidos e seus aliados quebraram leis internacionais ao atacarem um Estado soberano sem um mandato das Nações Unidas. Ainda que não sejam os mais autorizados a questionar este tipo de atitude bélica, é certo que a comparação é pertinente. O mundo mudou muito desde o esboroamento da União Soviética. A impressão era de que uma paz poderia se iniciar, com os homens usando todo o seu engenho para solucionar os grandes problemas que o planeta enfrenta. A realidade, porém, é outra. E ações como as que foram encetadas contra a Iugoslávia só servem para ampliar a incerteza em um mundo em que alguns podem se lançar contra uma nação para forçá-la a seguir rumos ditados por sabe-se lá que tipo de interesse.

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