Balanço positivo
Embora seja possível encontrar motivos para questionar e até criticar o plano de estabilização econômica que tem no real seu grande ícone, a completar cinco anos de criação, é indiscutível que existem muitas razões para celebração diante dos resultados gerais obtidos pelo projeto. O Plano Real pode ser considerado o mais bem-sucedido de quantos foram lançados a partir da redemocratização. O extermínio da superinflação, legada ao poder civil pelos militares, e a conservação das taxas anuais em patamares de país civilizado, representaram o passo decisivo para a desindexação de preços e salários e o aumento da renda real dos mais pobres. Sobretudo, permitiu a reestruturação do setor produtivo, tornando-o moderno, eficiente e competitivo.
Ademais, é fundamental observar que o plano abriu o caminho para um programa de reformas estruturais sem precedentes na história da democracia brasileira. A moeda estável foi a base para o grande esforço de mudanças que ainda não foram concluídas, mas que, sem dúvida, produzem condições para o estabelecimento de uma nova situação econômica no País. Para perceber as mudanças, basta notar como o sistema de empresas estatais que dominava a economia não tem mais a mesma força ou já foi passado para a iniciativa privada. Nota-se uma profunda mudança em quase todos os segmentos da vida nacional.
Entretanto, ainda há enormes problemas e muitos obstáculos. O desemprego, considerado o maior de todos os problemas, drama de milhões de brasileiros, é apontado como resultado do projeto econômico do governo, embora esta seja apenas parte da verdade. Em realidade, embora não se possa descartar a tese segundo a qual a luta contra a inflação acabaria produzindo uma certa quota de desemprego, é importante observar que, no caso, há outras questões, entre as quais a própria mudança nas estruturas do trabalho, aqui como no exterior, provocando uma revolução que exige respostas novas para o grande desafio da globalização.
Pode ser mais fácil criticar-se a estabilização, mas é necessário ir além para se perceber que sem o projeto lançado há mais de cinco anos (começou, em verdade, em fevereiro de 94, com o lançamento da URV, a indexação total e a aprovação do Fundo de Estabilização Fiscal, pelo Congresso), o Brasil poderia ter caído, em pouco tempo, numa situação caótica e incontrolável. O plano, apontado inicialmente como manobra para eleger o sucessor do então presidente Itamar Franco, revelou-se bem mais sério do que isso. Teve sucesso na questão básica, a luta contra a hiperinflação, e está garantindo uma situação de estabilidade como há décadas o Brasil não vivia.
Mas o grave é observar que pelo menos um setor mudou muito pouco ao longo desses cinco anos: foi precisamente o político. Anuncia-se, atualmente, um esforço do Congresso no sentido de uma reforma política que seja capaz de atender às necessidades dinâmicas de um novo milênio. Infelizmente, porém, as indicações a respeito são pouco satisfatórias. Até mesmo as questiúnculas que continuam a formar o panorama político, as exigências de partidos para manter apoio ao governo, as traições verbais e até de votos, durante apreciação de reformas de vital importância para o País, evidenciam que se nossa economia mudou nesses cinco anos, a política persiste a mesma.
Como, porém, o processo total de transformações, iniciado há cinco anos, ainda não se concluiu, é possível esperar que também na esfera política ocorram as mudanças que toda a estrutura nacional reclama para enfrentar de modo adequado os desafios do novo século. Para isso é necessário apenas que, mesmo percebendo os bons resultados obtidos nesses primeiros cinco anos, persista o propósito de continuar no caminho para que o Brasil volte a crescer com justiça social.

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