Editorial - Avanço da ética
Os 23 presidentes e chefes de governo ibero-americanos que participam, na Venezuela, de uma conferência de cúpula assinam hoje declaração conjunta em defesa dos valores éticos na política. Refletindo tendência que ganha corpo em praticamente todos os países, os governantes ibero-americanos pretendem deixar evidente a intenção de aproximar a ação política dos anseios mais legítimos dos povos que representam. Estes mostram, há tempos, seu inconformismo com a corrupção dentro do Estado e o abuso de poder. E reivindicam não só reformas objetivas, mas renovação de princípios que valorizem os conceitos mais elevados da vida humana, buscando superar a separação que existe entre moralidade e legalidade, que em muitos países se opõem entre si.
Manifestando total apoio à iniciativa, o presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou que este anseio ético provocou a grande reação popular que levou à renúncia do ex-presidente Fernando Collor. O presidente brasileiro foi enfático ao afirmar que, salvo um descalabro econômico, a única ameaça ao seu projeto de reeleição seria a eclosão de um escândalo de corrupção em seu governo. É o reconhecimento claro de que a população brasileira está cada vez mais consciente de seu papel, passando a exigir da autoridade não só uma ação eficiente, mas também um trabalho honesto e sério.
Trata-se, inegavelmente, de um avanço no país em que, há poucas décadas, políticos chegaram a cunhar slogans para campanhas eleitorais do tipo rouba, mas faz, como se a rapinagem da coisa pública fosse coisa normal e comum, sendo melhor aquele que, apesar de se apossar do dinheiro da nação, deixava como consolação ao povo algumas obras. Por mais lamentável que seja este conceito, não há como desconhecer que fez parte da vida brasileira por longo tempo. Infelizmente, como resultado da herança colonial, foi frágil a distinção entre o público e o particular na América Latina, de tal modo que os que estavam no comando da vida política acabavam por se considerar donos dos respectivos países. E tornaram legal o imoral e o antiético.
Nem tudo que é legal é moral. Basta que a lei seja imperfeita ou propositadamente redigida para deixar aberta a fresta por onde o imoral vai passar. Embora se possa argumentar que há distinções sobre moralidade entre povos de diferentes origens, a sustentação real dos preceitos que levam os homens a se unir em sociedade são os valores morais inerentes à formação humana. E o grande anseio é justamente o de se conseguir unir ética e moral sob o manto da legislação social que rege a vida das sociedades civilizadas.
O documento que os governantes dos países da comunidade ibero-americana vão firmar hoje constitui precisamente a materialização deste anseio, visando fazer da ação pública uma consequência natural da vida reta de civilizações evoluídas.
A reação do povo brasileiro à falta de ética e de moral, apontada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso como fundamental na derrubada do governo Fernando Collor, consubstancia esta nova mentalidade que atravessa o Brasil e o mundo. Trata-se, sem dúvida, de uma evolução no nível de consciência ética dos cidadãos, que assumem cada vez mais seu papel como legítimos detentores do poder. É bom que os governos sigam o exemplo de seus respectivos povos.





