Editorial - Aumento inexplicável
O reajuste autorizado para os preços do gás para quase todo o país (no Rio e em São Paulo os preços foram liberados) decorre, segundo informação oficial, de uma redução nos subsídios ao produto. Como se sabe, o GLP tem um peso importante nas despesas de praticamente todas as famílias de baixa renda e a existência de subsídio decorria precisamente disto, pois se fosse cobrado seu preço real o valor ficaria pesado demais. Uma política de supressão de subsídios é bem-vinda se isto reduzir significativamente as despesas de governo. Mas é anti-social se a redução for insignificante e o prejuízo à população, muito grande. Este é o caso.
Em primeiro lugar, o percentual do aumento: 10,4%, contra inflação de 4,3% a 7,8% em 1997, conforme a menor e a maior taxa acumulada no período (INPC e IPA, respectivamente). O reajuste terá forte impacto no índice da inflação de março e de abril, que vamos conhecer no mês que vem e em maio. Só neste mês o golpe será de 0,75%.
Certamente, é difícil administrar preços e conciliar a necessidade de cortes em subsídios com o controle da inflação e a proteção ao orçamento familiar. Em algum momento, como agora, podem ocorrer choques como este. Mas, o mais complicado de entender é que o reajuste surge exatamente quando os preços do petróleo no mundo continuam a despencar. Os países produtores têm se mostrado altamente preocupados com a situação, temendo que os preços caiam aos níveis mais baixos das últimas décadas! E é nesta hora que o Governo brasileiro resolve aumentar o preço do gás!
Ocorre algo estranho com o petróleo no Brasil. Quando os preços sobem no mercado internacional, o consumidor brasileiro sofre imediatamente os efeitos. Mas quando há queda de preço, sabe-se lá por que tipo de alquimia econômica os efeitos não chegam às bombas dos postos nem aos botijões de gás.
Fenômeno idêntico acontece em outras situações da vida econômica nacional. É o caso dos juros. Em outubro, em função da crise asiática, houve uma elevação absurda na taxa de juros oficial - sendo que antes disto os juros no Brasil já estavam muito acima de qualquer patamar civilizado. A consequência foi a alta desvairada dos juros no comércio, na indústria, nos bancos. Nos últimos dias, o Banco Central começou a reduzir a taxa, mas isto não tem sido repassado na devida proporção ao consumidor.
Na verdade, tudo isso acontece porque persiste no Brasil, em muitos setores, a mentalidade perniciosa que ajudou a causar a hiperinflação que quase afundou o País. Neste momento em que o Brasil parece ter conseguido estabelecer um adequado controle da inflação, o ideal seria que até mesmo a política de redução ou corte de subsídios levasse em conta o peso que uma decisão isolada como esta relativa do gás poderia ter.
Igualmente, seria muito satisfatório se o consumidor se sentisse beneficiado pela queda dos preços internacionais do petróleo, que vem sendo muito comentada mas que parece estar acontecendo em outro planeta. A globalização, de que tanto se fala e cujos efeitos negativos são sentidos com grande peso, deveria (e poderia) produzir também consequências positivas. É provável que isto não esteja acontecendo porque, apesar do tempo de vigência do plano de estabilização, muitas mentalidades ainda não mudaram. E já é mais que tempo de isto acontecer.





