O gesto do sr. Fernando Henrique Cardoso, suspendendo abruptamente a visita oficial que fazia à Espanha para voltar ao Brasil a tempo de ver pela última vez o amigo Luís Eduardo Magalhães, constitui, sem dúvida, a evidência de uma sensibilidade humana de enorme grandeza. Ao mesmo tempo, porém, foi uma atitude diplomaticamente incorreta. Jornais de grande porte da Espanha não deixaram de fazer críticas à decisão do presidente brasileiro de cancelar compromissos, deixando no ar apenas o aviso de que voltaria em maio para retomar as conversações. Para muitos dos comentaristas ficou a impressão de um descaso em relação ao país visitado.
Para tentar até minimizar os efeitos desta verdadeira gafe diplomática, alguns observadores no Brasil assinalam que o presidente decidiu voltar não apenas por motivos pessoais, diante da tão inesperada morte do correligionário e amigo. Para os que defendem a decisão de FHC, a volta ocorreu porque com a morte de Luís Eduardo Magalhães ficou um vazio político que dificilmente pode ser resolvido, ainda mais num momento de grande importância, às vésperas de votações cruciais das reformas. Assim, ao tempo em que expressava pessoalmente seu pesar, o presidente também tratava de tentar, pessoalmente, buscar soluções para a ausência de Luís Eduardo no plano das relações Legislativo-Executivo.
Esta justificativa é, sem dúvida, fraquíssima. A presença do presidente no País, agora, não vai mudar nada o quadro político. As afirmativas feitas antes mesmo de deixar a Espanha, quando assinalou que a melhor homenagem que o Congresso poderia fazer ao falecido líder era aprovar as reformas pelas quais ele vinha lutando, são muito emocionais e pouco práticas. A verdade, que saltou aos olhos a partir do momento em que se confirmou a morte do parlamentar baiano, é que a situação das reformas, no Congresso, que já era complicada antes, torna-se ainda mais difícil. Não há hoje quem possa assumir o papel de Luís Eduardo. E nem mesmo a maior disposição do presidente em negociar com as diferentes alas políticas que formam a Câmara Federal vai mudar isto.
O que se tem, na melhor das hipóteses, é um erro de avaliação que pode ser muito danoso à imagem do País, principalmente em relação à Espanha. Foi um gesto deselegante, que pode ser percebido diante dos que estavam à espera do sr. Fernando Henrique Cardoso, em Madri, para a homenagem ao soldado desconhecido, uma cerimônia que faz parte do protocolo em visitas oficiais. A dor pessoal do cidadão não poderia ser colocada acima da sua condição de maior representante do Brasil em uma visita de grande importância a um país amigo, ainda mais quando se sabe a importância das relações comerciais entre ambas as partes. Sair correndo em meio a uma visita oficial é uma atitude que só seria justificada em uma situação realmente emergencial, já vista aliás entre nós: o rei da Etiópia estava em visita oficial ao Brasil, quando ocorreu um golpe de Estado em seu país, tendo sido ele deposto. A visita foi suspensa, ele voltou e controlou a revolta. Mas, felizmente, não era este o caso.
Há muitos anos, o então presidente francês Charles de Gaulle teria feito um comentário não muito educado sobre o Brasil. Ele teria dito que ‘o Brasil não é um país sério’. Este comentário (que alguns dizem jamais chegou a ser feito pelo líder francês), provocou justa indignação. Mas quando o presidente da República suspende uma visita oficial, deixa de lado as obrigações de governo para o enterro de um correligionário, esta é a impressão que fica.

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