Editorial - Atendimento aos flagelados
As imagens que os brasileiros têm visto pela TV são, por si, incontestáveis: outra vez a seca aflige de modo dramático o Nordeste brasileiro, provocando mais miséria e fome para milhões de pessoas. Segundo os cálculos mais recentes, chega a 10 milhões o total dos flagelados, reclamando tudo, desde a ajuda emergencial (comida), até o apoio mais amplo para a superação das dificuldades. É um drama antigo, que se repete com avassaladora constância. O Imperador Pedro II, há quase um século e meio, mostrou-se tão deprimido ao deparar com o quadro da seca e de seus efeitos sobre os brasileiros que empenhou sua palavra e sua vontade como garantia de que iria resolver o drama. Não conseguiu, assim como também nenhum dos governantes que o sucederam, nestes 100 anos de República.
Obviamente, neste momento, não se trata de pensar em como enfrentar a seca ou nos métodos capazes de modificar a situação climática do Nordeste, embora esta deveria ter sido a questão a exigir de quantos governaram o Brasil, desde Pedro I: o trabalho e a vontade para resolver. Este é o desafio que não foi colocado ainda e que espera solução há século e meio. Agora, porém, o que reclama atenção efetiva e imediata é o drama dos 10 milhões de brasileiros, homens, mulheres e crianças, que passam fome, que não têm água e que, sem assistência, estão condenados.
Ao que tudo indica, estes milhões de brasileiros não vão ficar desassistidos. O governo federal acaba de anunciar um plano destinado a dar imediata assistência aos flagelados, com investimento previsto de R$ 140 milhões. Não existe dotação orçamentária específica, mas indica-se que poderá ser usada parte dos recursos de diversos projetos do Ministério do Planejamento, que somam 300 milhões. É um quadro positivo, este. Afinal, ninguém pensa sequer em discutir a situação, há uma concordância plena sobre a necessidade de se atender com a maior rapidez os nossos patrícios.
É neste ponto, contudo, que começa o questionamento. Notícias divulgadas ontem indicam que o governo federal pretende agir diretamente no atendimento aos flagelados. Ora, normalmente quem deveria prestar este tipo de assistência seriam os governos estaduais. Mais objetivamente ainda, talvez fosse o caso de se pensar em municipalizar este tipo de auxílio. Há, porém, o aspecto político da questão. Por dois motivos, afirma-se, o governo federal resolveu tomar a si a campanha de atendimento aos flagelados: em primeiro lugar, há o temor da reação internacional. Com efeito, ainda é recente a grita mundial em face da demora do governo federal em agir no caso do incêndio que atingiu o Estado de Roraima. O Executivo não deseja ser, outra vez, alvo de reprimenda mundial. Mas há outro fator: este é um ano eleitoral e assistir os necessitados pode render também bons dividendos em voto.
O mais importante, sem dúvida, é que se atenda o mais rápido possível os brasileiros que estão em situação lamentável. De qualquer modo, não agrada ver como um drama como este é levado pelo terreno da politiquice e da demagogia. Em verdade, interessa pouco aos que estão sem alimentos, sem assistência e, principalmente, sem esperança, de onde ou de quem vem o auxílio. O que de fato conta é a gravidade do drama e a necessidade de uma ação humana de atendimento.
E o que o Brasil todo espera é que a assistência aos flagelados seja feita de modo rápido e correto, sem abusos, negociatas e tantas outras coisas que têm acompanhado sempre o drama dos martirizados do Nordeste. Já é mais do que tempo de o Brasil passar a ter seriedade e honestidade no trato de assuntos tão sérios quanto este do drama das vítimas da seca.





