Editorial - Assumindo o próprio destino
Assumindo o próprio destino
Dentre as muitas boas consequências desta verdadeira mobilização que se formou no Estado a respeito do pedágio nas estradas, é possível observar a evolução na conscientização coletiva sobre a importância e a necessidade de um envolvimento pleno do cidadão nas decisões que envolvem seu interesse. É importante perceber como ponderável que parte do debate se encaminha para o fato de que se está, atualmente, diante de fatos consumados, de contratos já concluídos, o que dá até a impressão de que todo este esforço vem atrasado. Ocorre, porém, que se isto acontece é porque apesar de todo o interesse envolvido no assunto (e não há dúvida que tudo o que envolva assuntos rodoviários interessa de perto à coletividade como um todo) faltou a devida transparência, o esforço interessado dos que administram no sentido de convocar a opinião pública à participação antecipada.
A alegação é a de que este, como outros temas, foi difundido nos moldes costumeiros, houve o convite para o debate por parte dos interessados. É certo, porém, que neste momento da vida brasileira as coisas precisam ser diferentes do que eram no passado. Questões de relevância precisam ter uma informação mais intensa. É o caso típico da política: tem faltado divulgação real e direta ao povo sobre os meandros da atuação política, a importância da participação do eleitor no processo, inclusive com a filiação partidária nos prazos devidos. Ultimamente, com a proliferação das siglas, ocorreu uma difusão mais direta a respeito. Todavia, ainda se está longe do ideal, a grande maioria do eleitorado continua sem a informação completa sobre os meios de participar de todo o processo. Com isto, a participação mais plena do eleitor se resume ao voto, que é, sem dúvida, o mais importante no processo democrático, mas não é tudo.
O que se reclama, em todas as decisões que se toma, hoje, é uma difusão mais concreta e um chamado efetivo para que a opinião pública possa participar. A tese segundo a qual o eleitor, através do voto, transfere ao político eleito o poder para decidir tudo, sem qualquer questionamento, tem certo travo de totalitarismo. O voto não é transferência do poder, é apenas a outorga de uma procuração para o político. Ademais, com a evolução nas comunicações, com a ampla possibilidade de difusão de tudo o que se faz e se decide, com a maior conscientização do povo e o crescimento, que tem sido vital na vida brasileira dos anos recentes, do senso de cidadania, não se pode mais aceitar que os eleitos tomem em suas mãos decisões que afetam a vida da população sem buscar no debate e no esclarecimento uma participação que é o cerne da democracia.
A eventual falta de participação da opinião pública, dos segmentos mais diretamente interessados, na questão da terceirização das estradas, com tudo o que envolve o assunto, não pode ser por si motivo para considerar atrasada a atual mobilização. O que há a fazer é pensar em termos de presente e de futuro. Com respeito a decisões futuras, é fundamental que se exija cada vez mais transparência o que significa uma divulgação completa, correta e honesta no processo. Quanto à questão bem atual em debate, os pedágios, é fundamental que haja uma postura menos imperial por parte do poder público, que deveria trabalhar junto com os segmentos representativos da opinião pública na busca de soluções adequadas. Este é o modo para proceder nesta época em que cresce a percepção pública e se amplia o anseio por uma participação cada vez maior do povo nas decisões de seu interesse. Nunca como agora, houve uma condição tão propícia a que o cidadão seja, de fato, agente de seu destino. Não se pode perder esta oportunidade.





