Editorial - As saídas possíveis
Em meio ao tumulto provocado pelas medidas adotadas pelo governo, inclusive com críticas pesadas da oposição - o que é natural, ainda mais em época de campanha eleitoral -, o ministro-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, insistiu ontem em Brasília, em Seminário sobre Desenvolvimento Local Sustentado, que as diretrizes são adequadas e suficientes para enfrentar a crise. O mercado precisa entender que estamos num processo de sequência de ações, disse ele, ressaltando que as medidas anunciadas na terça-feira traçam um caminho, que será cumprido pelo governo. O ministro-chefe da Casa Civil minimizou as declarações do ministro da Saúde, José Serra, que reclamou dos cortes na sua área. Como todos os ministros, ele também terá que dar uma contribuição objetiva para o ajuste fiscal, disse Clóvis. E esclareceu que as metas sociais permanecem as mesmas, mas terão que ser executadas com menos recursos. O desafio é ganhar em rentabilidade e produtividade.
O citado desafio, aliás, deveria ter sido uma preocupação constante do governo, que representa sempre, e mais especialmente nesta fase de ajuste que o país atravessa, o fator negativo na luta pela estabilidade. Com efeito, o que tem faltado, quase que invariavelmente desde que o Governo Itamar Franco lançou o atual projeto de estabilização da economia, é a realização da parte que se atribui ao Estado. Na verdade, é um quadro que se repete. Quando o Governo José Sarney lançou o Plano Cruzado, houve uma participação maciça do povo, que não só se posicionou a favor do projeto, como também assumiu os sacrifícios reclamados. Mas, já na época, o governo se omitiu. E transformou o que poderia ter sido uma excelente alternativa de combate à inflação em degrau eleitoreiro.
Posteriormente, em todos os apelos ao sacrifício para a concretização de mudanças, o povo participou (até porque, na maior parte das vezes, não tinha alternativas). Mas o governo sempre se omitiu. O Plano Real, com sua inteligente engenharia, propôs reformas estruturais de fundamental importância como base para o sucesso do projeto. Uma vez mais, quatro anos passados, o que se vê é que o povo realizou sua parte, mas o governo persiste em retardar as medidas necessárias. Foge aos sacríficios, prefere atalhos, não aceita medidas corretivas - como a atual proposta de redução nos gastos orçamentários. E, como resultado, pode ser apontado como o principal responsável até por esta turbulência interna. Pois é inegável que se o plano de estabilização formulado antes das eleições passadas tivesse se concretizado, com as reformas propostas já implementadas, o Brasil estaria hoje em situação muito mais tranquila para enfrentar a agitação que se percebe em outros países.
O que importa, porém, na observação global não é a lamentação vazia sobre as reformas que não foram feitas. Esta fato só precisa ser enfatizado para manter a questão em aberto e permitir que se continue cobrando tais medidas que são cada vez mais importantes. Todavia, o que ressalta é observar que, sem estas reformas, o Executivo tem tentado acompanhar a situação, usando os meios de que dispõe para enfrentar as crises, tanto as externas - caso atual - como as internas, que formaram o grande desafio dos primeiros tempos de desenvolvimento do programa de estabilização. As medidas de terça-feira estão, assim, bem de acordo com a idéia de um acompanhamento emergencial destinado a evitar transtornos maiores para a economia. Representam o possível, durante uma campanha eleitoral sem que se possa sequer contar com o Legislativo.





