Editorial - As duas crises
As duas crises
O início do segundo semestre das atividades do Legislativo abre imensas expectativas diante dos sérios problemas que o país enfrenta e das importantes tarefas que devem ser concluídas, principalmente no Congresso. No que tange à política, é fora de dúvida que grande parte das atenções vai se voltar para o Legislativo federal, que tem muito trabalho a fazer, especialmente a esperada, protelada e necessária reforma tributária. Anunciada como vital para a realização do plano de estabilidade, adiada durante anos, esta reforma vive um momento crucial: se o Congresso não conseguir concretizá-la, o que implica em chegar até a promulgação das mudanças este ano, então nada poderá ser feito em função dela em 2000, fazendo com que só no próximo milênio a questão seja resolvida. O novo milênio não está tão distante, mas não é difícil perceber que o Brasil já perdeu muito tempo e não pode mais continuar a viver na filosofia de ir empurrando os problemas para a frente. A falta de uma nova estrutura tributária, mais racional, objetiva e que seja formulada dentro de critérios técnicos, sem paternalismos e truques, é uma das causas de parte da crise que o país enfrenta e da qual parece não poder sair.
Na verdade, é possível diagnosticar duas crises no Brasil. Existe a real, a dos desempregados, dos marginalizados, dos carentes, que enfrentam dificuldades intensas para sobreviver, e a artificial, provocada por aqueles que continuam interessados em tirar proveito pessoal, sem levar em conta a prioridade que visa levar o país a um novo patamar. O segmento dos que continuam a tentar se aproveitar da situação não é novo, sobrevive no Brasil desde tempos imemoriais, sendo responsável, entre tantas outras coisas, pela nebulosa central de boatos, que no período mais complicado do caos econômico lançava falsidades no final de semana para tumultuar a situação e, naturalmente, tirar vantagens.
O programa de estabilidade serviu para esvaziar muito a ação dos boateiros. Eles não deixaram de existir, apenas se deixaram ficar, certos de que a própria dinâmica da sociedade mundial acabaria por propiciar novas oportunidades. Assim como é certa a afirmativa, usada nos anos pós-Vargas segundo a qual o preço da liberdade é a eterna vigilância, também se pode considerar que todo um processo de evolução econômica exige atenção e cuidado e um continuado trabalho coletivo, unindo povo e governo na mesma direção. O Brasil vivencia atualmente não apenas os efeitos desta grande crise mundial, que atende pelo nome genérico de globalização, mas também os resultados de anos de inércia e abusos. O total dos marginalizados, efetivamente, se reduziu em função dos bons resultados do combate à inflação. Entretanto, é certo que ainda é imensa a coletividade que vive em situação precária, reclamando atenção para o resgate de sua dignidade, fundamental até para que o País, como um todo, resolva suas crises.
É fora de dúvida que esta transformação interna que ainda é necessária só se fará dentro do trabalho de continuidade do projeto que não foi concluído das reformas estruturais. Do mesmo modo, é incontestável que o Brasil não pode mais persistir na paralisia e no adiamento da solução dos seus problemas básicos, dentre os quais o mais sério, hoje, está na complicada e até injusta estrutura tributária formulada pelos constituintes de 88 e que trouxe em si muitos dos vícios do passado brasileiro. O compromisso político inadiável reclama a disposição efetiva dos meios políticos para realizar efetivamente a grande reforma tributária e concluir as demais tarefas que devem ser a base para que o País saia da crise real e afunde os artífices das crises forjadas.





