Alta nos preços dos derivados do petróleo, majoração também do álcool, devido à retirada dos subsídios, reajuste nas tarifas públicas. Sem dúvida, se há meta que o governo parece disposto a cumprir neste novo acordo com o FMI é o de elevar a inflação, que no ano passado ficou perto de zero, para 16% este ano. Os aumentos nos preços dos combustíveis e nas tarifas do serviço público, como energia elétrica e água, atingem diretamente a maioria. E, como resultado, provocam elevação no custo de vida e na inflação. Acontece que para a população esta não é uma previsão interessante. O anúncio de que partidos de oposição já começam a se mobilizar para tentar indexar os salários à nova realidade não chega a entusiasmar ninguém. Os brasileiros já viveram esta situação. Nos últimos tempos pré-real, os salários subiam mensalmente, na época da indexação plena, por meio da MRV, que antecipou a criação da nova moeda. O reajuste era diário. Mas nada disso ajudou o assalariado ou a população. Na briga entre salário e inflação, o trabalhador sempre levou a pior.
Para o povo, o melhor é uma moeda estável, é uma inflação perto do zero. Neste momento, não há sequer esperança para isso. O governo acena com novo esforço de redução inflacionária para o próximo ano. E como grande parte da economia gira em torno das atitudes e decisões governamentais, é quase impossível à população derrubar uma tendência oficial. O mais grave é que este esforço do governo em elevar a inflação até determinado patamar pode resultar em nova explosão inflacionária. É até fácil começar a pressionar os índices para cima. Difícil é contê-los. E não se pode esquecer que existem os que querem realmente ver a situação se deteriorar, os que se beneficiaram da espiral inflacionária e querem restaurá-la, os especuladores de todos os naipes que já estão em franca ação, em todos os setores.
Esta sabotagem contra a economia se pode ver na difusão feita esta semana dos números da inflação no atacado, em fevereiro. É um dos índices existentes para medir mudanças na economia, mas não é o mais importante. A inflação no varejo, esta que pesa diretamente no bolso do consumidor, subiu em fevereiro, mas muito menos do que a do atacado. Segundo o IBGE, a inflação medida pelo INPC, em fevereiro, chegou a 1,29% - mais do que em janeiro, mas bem inferior à do atacado. Os especuladores, porém, têm uma argumentação: a inflação do atacado chega ao varejo nos próximos meses. Mas esta não é uma verdade absoluta. No passado, na época da indexação plena, era uma previsão real. Hoje há outras variáveis, a principal das quais a maior conscientização do consumidor. O atacado pode querer repassar a alta, mas se o varejo encontrar um consumidor disposto a não se deixar explorar, a coisa muda.
Este será, sem dúvida, o grande teste da mudança no comportamento do brasileiro, que foi fundamental para o sucesso do plano de estabilização. Desde que o chamado Plano Real foi formulado, a ação do consumidor revelou-se fundamental. Mas havia até agora um programa de governo que, apesar das falhas, ajudava. Neste momento, a situação é diferente. Há reajustes que vão pesar, e muito. Vem aí, de novo, o IPMF ampliado. E os aproveitadores já estão em ação. Neste quadro, o único fator positivo é uma realidade negativa: o poder aquisitivo do salário está em queda. Ainda que queira continuar comprando como antes, o consumidor não tem condições para tanto. Então, até por necessidade, vai pressionar o varejo. Não pode aceitar altas abusivas, vai ter de comprar pelo preço, vai deixar produtos na prateleira. E esta é a arma que pode conter a nova espiral inflacionária.

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