Editorial - Apoio à produção
Não apenas neste momento de crise, mas em todas as circunstâncias, um governo precisa atuar em múltiplas frentes. Atualmente, a maior preocupação das autoridades nacionais parece ser com relação à questão cambial. O dólar ontem já passou a barreira dos 2 reais, o que pode até criar um clima de maior preocupação, até pelo aspecto psicológico implícito neste fato, mas ocorre que a luta para manter o real e uma desvalorização cada vez maior, com todas as suas implicações, passa por uma diversidade de ações da esfera oficial que vão além das medidas técnicas adotadas para defender a moeda. O governo precisa atuar em muitos campos e, em certo sentido, o está fazendo, inclusive pedindo ajuda da coletividade, conforme se pode entender da proposta do presidente de um diálogo intenso com a população, em busca de alternativas. A continuação dos trabalhos legislativos visando concluir o ajuste fiscal é um destes campos de batalha, a retomada dos esforços para concluir as reformas estruturais é outro, mas há ainda mais frentes que precisam ser acionadas, inclusive - e talvez principalmente - a que objetiva estimular a produção em todos os setores. Este é, sem dúvida, o meio concreto de atuação para garantir a base de uma nova estrutura econômica, que ao invés de ter como alicerce as reservas cambiais buscaria como lastro a realidade produtiva de um país que pode gerar, pelo trabalho, riquezas fantásticas.
O Brasil precisa estimular a produção e, nesta mesma linha, deve criar meios para distribuí-la. Curiosamente, a primeira questão não parece tão difícil de resolver. O Brasil está produzindo em vários setores, tanto no campo quanto nas indústrias urbanas. Ocorre que é preciso também pensar nos meios para que esta produção seja consumida. Este é um dos nós da situação econômica nacional, com a recessão e os salários estagnados (e perdendo o poder aquisitivo, inclusive em função da desvalorização cambial e de uma quase que inevitável alta nos preços). A resultante disto também é negativa para o próprio governo, uma vez que a queda no consumo se reflete em redução na arrecadação de impostos. Volta-se sempre à percepção segundo a qual a necessidade premente de se ter maior arrecadação esbarra na queda do volume de negócios.
Neste quadro, a nova investida do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, da Força Sindical, e do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, da CUT, que pretendem apresentar juntos ao presidente Fernando Henrique Cardoso, possivelmente na quinta-feira, o projeto de emergência para o escoamento do estoque de veículos, hoje em cerca de 100 mil unidades, é muito oportuna. Hoje, ambos apresentam o projeto às 10 horas, no Palácio dos Bandeirantes, ao governador Mário Covas e tentarão convencê-lo de que um bom reforço para a idéia seria a redução também do ICMS. O plano de emergência prevê redução de 50%, por três meses, do IPI para montadoras que cancelarem o aumento de preços anunciados nos últimos dias e suspenderem demissões. O plano daria tempo de o outro projeto, mais duradouro, de renovação da frota de veículos, ser implantado em todo o País.
Esta idéia não é nova e, aliás, já foi utilizada: reduzir impostos para aumentar as vendas, melhorando também a arrecadação de impostos. E, o que ainda é mais importante, são criadas condições de aquecimento da economia, com melhores possibilidades para a produção, mais empregos, enfim, o giro positivo e para cima da atividade produtiva. Adicionalmente, a produção maior ajuda pelo menos a evitar altas nos preços. E, finalmente, esta situação cria bases mais sólidas para que o País saia da crise de modo construtivo.





