Milhares de agricultores europeus realizaram segunda-feira uma manifestação diante da Esplanada do Cinquentenário, em Bruxelas, protestando contra a reforma da Política Agrícola Comum, da União Européia. Eram muitos e diferentes os idiomas, mas uma idéia a uni-los: o desejo de lutar por seus direitos, a percepção de que a agricultura está ameaçada por políticas e políticos que não entendem a importância do papel da produção e que, por isto, adotam ou implantam diretrizes que tornam a atividade no campo cada vez mais dura. Uma situação que chega a ser curiosa, porque ocorrendo em plena Europa, envolvendo produtores de países considerados desenvolvidos. O que se percebe nisto é que o produtor rural, na Europa Ocidental como em qualquer parte do mundo, continua a ser visto de modo deturpado e é tratado como uma espécie de força secundária.
É lamentável, mas real: neste mundo globalizado, os políticos, em especial, começam a perder de vista fatores básicos. O que fazem com a agricultura e com os agricultores é típico da falta de visão de quem se afastou da realidade da vida, envolvendo-se em uma espécie de mundo de fantasia no qual os papéis são mais importantes que o trabalho, desconhecendo as mais simples necessidades humanas. A desvalorização do trabalho no campo, a adoção de medidas que dificultam a vida do produtor rural, a visão deturpada sobre as necessidades dos seres humanos, tais situações vão se tornando comuns por toda parte, produzindo como resultado até natural a reação dos que, apesar de tudo, insistem em trabalhar a terra e em produzir para alimentar inclusive aqueles inconscientes que os exploram e tornam sua atividade cada vez mais difícil.
Sob um sentido político, pode-se considerar que os problemas dos produtores agrícolas europeus até que são bons para os agricultores de outros países. Afinal, uma das grandes reclamações dos produtores daquele continente está ligada à redução dos subsídios à agricultura. E, sabe-se, isto poderia ser bom para as condições de competitividade dos produtores da América, por exemplo. Acontece, porém, que os políticos de lá como daqui seguem a mesma linha de raciocínio. E em toda parte, procuram criar obstáculos à produção, sem perceber até que a própria visão a respeito da atividade no campo tem de ser diferente da adotada para a análise do trabalho urbano. O campo tem outras exigências, opera sob as leis da natureza, precisa ser apoiado para realizar seu trabalho que é vital: alimentar uma população crescente neste mundo cada vez mais carente.
A FAO, órgão da ONU que se ocupa dos problemas da agricultura e alimentação, considera que o próximo século, definido como o Século das Cidades pelos seus técnicos, já que mais de 60% da população mundial viverá em áreas urbanas, representa um desafio para as autoridades locais, que deverão garantir alimentos para todos. ‘‘A garantia de alimentos dependerá não apenas dos rendimentos, mas também do nível e da estabilidade do custo de acesso aos alimentos, assim como da variedade e qualidade deles’’, afirmou um dos técnicos do organismo.
Ora, é preciso que os governantes, na Europa como na África, na Ásia ou na América, percebam que precisam mudar suas políticas a respeito do campo. É fundamental uma nova mentalidade de apoio ao produtor para permitir que ele realize seu trabalho de importância vital para a sobrevivência da raça humana. Talvez seja o tempo de se pensar globalmente também na agricultura, oferecendo-se aos que alimentam a humanidade condições dignas para que continuem a realizar seu trabalho. Sem isso, a própria existência do homem fica ameaçada.

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