Editorial - Anseios democráticos
Não é apenas no Brasil que boa parte da população se mostra inconformada e insatisfeita com os políticos. Nos Estados Unidos, que vivem a campanha eleitoral para a sucessão presidencial, o quadro se mostra muito semelhante ao brasileiro. Anarquistas, desamparados, gangues, jovens e outros grupos descontentes com o sistema político norte-americano estão promovendo assembléias alternativas aproveitando a Convenção Nacional Democrata, que começa na próxima segunda-feira em Los Angeles. O fracasso da política antidrogas, a violência juvenil, os direitos de milhares de sem-teto e o embargo contra Cuba são alguns dos temas previstos para pouco mais de meia dúzia de convenções paralelas nos próximos dias naquela agitada cidade californiana. Eileen Kohain, uma cientista política da Universidade do Sul da Califórnia (USC), explica esta situação afirmando que boa parte do povo sente que não está sendo ouvida e que esta parcela está cansada de políticos que não agem de acordo com suas necessidades. A Shadow Convention (convenção à sombra), organizada pela comentarista política Arianna Huffington, é a mais destacada do intenso programa paralelo, sobretudo pelas figuras anunciadas, entre elas o reverendo Jesse Jackson e o sempre presente Warren Beatty, que fez sucesso recentemente com um filme em que criticou violentamente os políticos e a política norte-americana.
A crescente diferença econômica também será tratada na Convenção dos Desamparados, onde cerca de mil participantes deverão debater durante seis dias um plano nacional para os sem-teto. Por outro lado, a Convenção de Mães, centralizará os debates na necessidade de mudar o sistema de assistência pública. Outra reunião prevista é a Conferência Anarquista Norte-Americana, organizada pelo chamado Coletivo Agosto, que espera atrair 1.500 pessoas em seu encontro. Uma coalizão de organizações de esquerda vai tratar de buscar uma melhor solução para o sistema bipartidário na chamada Convenção do Povo, enquanto um grupo de gangues de afro-americanos e latinos vai explorar as possibilidades de frear a violência, durante a Convenção do Programa de Paz.
Há um elemento interessante, porém, na forma de reagir dos grupos norte-americanos diante da situação política. A realização de convenções paralelas, o manifesto interesse em aproveitar a presença da imprensa, que cobre a convenção democrata, a fim de difundir sua insatisfação, o esforço, enfim, de fazer ouvir suas vozes representa o fator positivo ao demonstrar que mesmo os que estão descontentes buscam a via democrática para se expressar. Este é um caminho válido e que oferece efetivas alternativas à participação política do povo.
Pode-se ponderar que este tipo de comportamento está bem de acordo com a maior evolução política dos norte-americanos, que vivem há mais de dois séculos sob a democracia, com uma Constituição que data da Independência e sofreu apenas algumas dezenas de emendas ao longo deste período. Em comparação, o Brasil está vivendo um recomeço, com menos de 20 anos de redemocratização, com pouco mais de um século de República cortado por longos períodos totalitários, com Constituições que surgem a cada nova situação. Todavia, nestes poucos anos, o Brasil de fato apresentou importante evolução. E é certo que o crescimento da consciência de cidadania constitui um fato ímpar na história recente. O que é necessário é que persista esta evolução e que, apesar da insatisfação, dos erros, dos crimes que os políticos continuam a cometer, o Brasil siga a trilha democrática, a única solução capaz de garantir, ao longo do tempo, a realização dos anseios e esperanças de qualquer povo.





