Editorial - Aníbal Khury
O acerto das afirmativas dos historiadores, segundo os quais a História dos povos, em quaisquer circunstâncias, é quase sempre escrita por algumas pessoas que atingem, pela inteligência, capacidade, habilidade ou tudo isto junto uma posição ímpar, tornando-se verdadeiros líderes e condutores, se confirma diante do vazio político que se percebe surgir diante da morte, ocorrida ontem, de Aníbal Khury. Fica até difícil imaginar a política paranaense sem a presença do homem que, mesmo durante o período em que perdeu os direitos políticos na época da ditadura ainda mantinha os contatos e detinha o controle. Aníbal Khury acabou se convertendo nas últimas décadas em um verdadeiro oráculo, de tal modo que, especialmente na Assembléia Legislativa, em que viveu a maior parte de sua carreira política, pouco ou nada se fazia no Paraná sem pelo menos seu aval.
Amado por muitos, odiado por outros, Aníbal Khury só não deixava ninguém indiferente. Seguramente, era bem maior o número dos que o apreciavam, o que pode ser comprovado por um fato: nove vezes ele foi eleito para a Assembléia Legislativa do Estado. E, normalmente, com grande folga, o que atesta um prestígio que poucos políticos conseguem. Ser eleito uma vez não é fácil. Conseguir a confiança da parcela necessária do eleitorado para representar o povo por nove vezes pode não ser um recorde, mas representa de modo claro que, junto ao eleitor, este político que nasceu em Santa Catarina, mas que era paranaense por adoção, escolha, vocação e vontade, tinha um apoio fantástico. Tivesse pretendido seguir outros caminhos, seguramente os teria atingido.
Acontece que Aníbal Khury definiu sua vida e sua vocação no trabalho legislativo. Ali, na Assembléia, nos contatos políticos, nos entendimentos que mantinha, fazia História. O fato de o governador Jaime Lerner haver ligado para ele da França, a fim de dar-lhe em primeira mão a notícia sobre a decisão relativa à construção da fábrica de automóveis francesa no Paraná, diz tudo: Lerner, como tantos governadores antes dele, apenas reconhecia o papel desempenhado pelo político, a importância de sua postura e, sem dúvida, do seu apoio. Era possível governar sem ele, mas sem dúvida a missão ficava mais difícil para qualquer governador.
É válido observar que com tanto poder, Aníbal Khury deixava clara uma vocação de serviço. O fato de haver sido punido pela ditadura, não tendo qualquer tipo de vínculo com a esquerda, combatida ferrenhamente pelo totalitarismo que dominou o país por 21 anos, é bem sintomático. A ditadura temia a força e o poder do homem que apenas usava sua habilidade para aglutinar as pessoas em torno de si, sem precisar da força ou das armas. Era perigoso para a ditadura. Mas, até por ser bem mais forte que isto, conseguiu superar a cassação, retornar à arena política e reassumir o papel que desempenhou com habilidade ao longo de cerca de quatro décadas.
Agora, vai começar uma nova história política no Paraná. Sem Aníbal Khury, desaparece um referencial. Como todo líder da magnitude que assumiu, não deixa herdeiros. E dificilmente surgirá quem o substitua. Naturalmente, haverá outro presidente na Assembléia Legislativa, um suplente assumirá sua cadeira naquela Casa, muitos políticos vão disputar no próximo pleito os votos que eram praticamente garantidos para ele ao longo dos seus nove mandatos. Mas a pessoa humana, que é insubstituível, esta não terá seguidores. Aníbal Khury deixa um vazio imenso. Mas deixa também muitas lições, como hábil articulador e político inteligente. Que os melhores destes ensinamentos possam nortear os que ficam na Assembléia e na vida política do Paraná.





