Amigos perigosos
‘‘Deus me livre dos meus amigos, que dos inimigos eu cuido.’’ Esta espécie de oração, que poderia figurar em uma coletânea de expressões populares, deve estar sendo repetida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Com efeito, os estragos que os ‘‘amigos’’ estão fazendo ao seu governo é muito maior do que o produzido pelos opositores. Além disso, a oposição tem um papel definido. Críticas, mesmo pesadas, partidas de Lula, Brizola ou de outros adversários são naturais. Até mesmo a grande manifestação realizada no mês passado em Brasília, com discursos realmente violentos, constitui algo aceitável. A democracia tem plenas condições de absorver este tipo de protesto.
O que porém está complicando a vida do presidente são os seus aliados, membros dos partidos que fazem parte do governo e até mesmo de sua própria legenda. O senador Antônio Carlos Magalhães, membro do PFL, hoje o maior aliado do governo, não tem perdido oportunidades para desancar o Executivo. Nem mesmo alguns comentários diretos feitos por FHC alteraram o modo de agir do senador. No aparente final da crise suscitada pela queda do ministro Clóvis Carvalho, Antônio Carlos Magalhães resolveu oferecer sua opinião de modo taxativo ao dar um prazo para que o governo resolva os problemas do desemprego e do desenvolvimento. Como disse o senador Pedro Simon, outro que pertence a um partido que apóia o governo, mas que está aproveitando as oportunidades para criticá-lo, ainda que de modo velado, o que o presidente do Senado fez foi estabelecer uma data para a próxima crise.
Não bastassem as posições dúbias de alguns políticos ligados aos partidos que fazem parte do Executivo Federal, os membros do PSDB no Paraná anunciaram independência em relação ao governo federal, alegando, entre outras coisas, que FHC prestigiou mais no Estado ao PFL do que ao seu próprio partido. Por mais que o argumento possa ser entendido, é certo que ver políticos do mesmo partido do presidente fazendo críticas a ele e ao seu projeto de administração causa mais que espanto, até constrangimento.
Questiona-se, muitas vezes, a falta de condições políticas do eleitor que raramente escolhe candidatos segundo as legendas, mas pelos nomes. Todavia, quando se observa o quadro político brasileiro, a constante troca de partidos pelos políticos e, atualmente, este tipo de ação de legendas que embora fazendo parte do governo resolvem adotar um discurso oposicionista, tem-se que a atuação do eleitorado é um reflexo da própria falta de diretriz de muitos homens públicos. Alguns partidos e políticos fazem jogo dúbio: beneficiam-se do fato de figurar na situação e, ao mesmo tempo, apresentam posições contrárias ao governo no momento em que o prestígio do Executivo está baixo.
O pior é que este tipo de atuação prejudica não apenas o presidente, mas o País que, afinal, neste momento, precisa de união – pelo menos entre os aliados – para que as grandes metas definidas pelos políticos em suas campanhas e que representam o objetivo de todos, sejam atingidas. Os políticos da situação não necessitam, naturalmente, ficar apenas dizendo ‘amém’ ao que o Executivo determina, podem (e devem) oferecer seus conhecimentos e aptidões para ajudar a dura tarefa de governar. O que porém não parece adequada é esta dubiedade que complica todo o trabalho do governo. O Brasil não precisa de mais crises, especialmente das fabricadas pelos políticos que fazem parte da situação.

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