Ameaça que não se confirmou
O tão temido ‘Bug 2000’ não aconteceu. Tudo funcionou normalmente: nenhum míssil foi disparado por acidente, as centrais nucleares funcionaram, as telecomunicações também, não faltou energia e quem quis pôde retirar dinheiro dos caixas eletrônicos. Nos cinco continentes, a maioria dos países passou pelo teste sem problemas significativos. Na América Latina, como no resto do mundo, não foram registrados problemas ligados ao temido ‘bug’.
O ministro do Planejamento do Brasil, Martus Tavares, garantiu, categoricamente, que a ‘operação antiefeito 2000’ foi um sucesso e que, portanto, os planos de emergência não seriam aplicados. Em nenhuma capital ou grande cidade brasileira foram registrados blecautes, nem interrupções de qualquer dos serviços básicos. Os aeroportos funcionaram normalmente, mesmo durante a interrupção das decolagens quando faltavam 15 minutos para a meia-noite.
Estados Unidos e Japão aconselharam seus cidadãos a armazenar comida, água e dinheiro para vários dias com o fim de combater eventuais problemas. Uma das maiores preocupações era com o sistema de navegação aérea, que em todo o mundo é regido pela hora GMT. Mas, quando chegou o momento mais temido, zero hora GMT, nada aconteceu. A Associação Internacional do Tráfego Aéreo (IATA), com sede em Montreal, comunicou que não havia ‘nada a relatar’.
A Europa sentia calafrios ao pensar no que poderia acontecer em Chernobil (cujo reator explodiu, em 1986) e em outras centrais nucleares, assim como nos sistemas de comando dos mísseis estratégicos da ex-URSS.
O Centro Internacional de Cooperação Y2K (nome em inglês do efeito 2000), organismo de cooperação formado por 170 países, sob os auspícios da ONU, declarou ter recebido o aviso ‘nada a destacar’ de 21 países nos mais variados pontos, como a Austrália, a Nova Zelândia, o Quênia ou o Paquistão.
Muito barulho para nada? ‘Não’, respondem em uníssono os especialistas. O enorme investimento feito para evitar incidentes, estimado pelo Gartner-Group, uma sociedade norte-americana, em 300 bilhões de dólares, no mínimo ajudou a evitar, até agora, o problema.
Existe nesta situação uma lição fundamental para o começo deste ano: os catastrofistas de plantão, aqueles que através dos tempos só conseguem enxergar desgraças, apenas antecipam tragédias, não devem merecer atenção maior. Não se trata de pretender fugir aos problemas, até porque não há dúvidas sobre o fato de que havia a possibilidade, caso os especilistas não agissem, de muitos problemas em função da transição de 1999 para 2000.
Todavia, tais problemas podiam (como se percebe agora) ser adequadamente resolvidos. Os alarmistas dirão que foi o alerta quase histérico de alguns que levou à adoção de medidas para evitar o pior. Também se pode considerar que uma imensa manobra mundial, que custou cerca de 300 bilhões de dólares, representa sem dúvida algo que justifica o alarme.
O importante é rememorar que, como quase sempre, os maiores e mais complicados problemas que o ser humano antecipa, não têm, no final, a dimensão temida. E, para começar este novo ano, é valioso perceber que, assim como diante do anunciado ‘bug’, quando o ser humano quer, resolve os problemas que o atingem. Com este espírito é possível enfrentar com firmeza os desafios que este 2000 trará, sem temer a grita assustada dos que parecem sempre dispostos a deixar o mundo perplexo e apavorado.