Editorial - Ameaça iraquiana
Rememorando o 7º aniversário do início da Guerra do Golfo, ocorrido a 17 de janeiro de 1990, o presidente do Iraque, Saddam Hussein, ameaçou fixar um prazo final para que a Comissão da ONU encarregada do desarmamento no país (UNSCOM) termine sua missão. Se o Conselho de Segurança não assumir a decisão de cumprir com seus compromissos previstos nas resoluções sobre o Iraque, estamos dispostos a tomar uma atitude conforme as recomendações da Assembléia Nacional (iraquiana) e assumiremos a responsabilidade de nossa decisão, declarou o chefe de Estado, em discurso pela televisão. Esta verdadeira ameaça do líder iraquiano pode representar o ápice de uma crise que se arrasta e que por várias vezes, nos últimos meses, deixou o mundo intranquilo diante da possibilidade de uma retomada daquele trágico conflito.
O que porém causa maior estranheza é observar que parte precisamente do responsável por toda a situação, Saddam Hussein, esta nova ameaça sobre a paz, não apenas na região mas em praticamente todo o mundo. Pois, com essa atitude, o presidente do Iraque dá a impressão de haver esquecido das origens de tudo, tentando empurrar sobre outros a responsabilidade sobre uma situação criada por ele mesmo, quando invadiu o Kuwait, desrespeitando a soberania de uma nação independente, não dando qualquer importância à reação da ONU, que por vários meses exigiu o fim da agressão. Quando, em janeiro de 90, uma verdadeira aliança de países, sob os auspícios da ONU, lançou o ataque para libertar o Kuwait, isso foi o desfecho de uma situação criada pelo dirigente iraquiano.
Saddam Hussein, ao invadir o Kuwait e, principalmente, ao não aceitar os imperiosos comandos da ONU - organização da qual o Iraque faz parte - para deixar o país vizinho, tornou-se um marginal no mundo. Portanto pode ser considerado o responsável pelo que ocorreu em seguida, tanto a ação militar que restaurou a soberania do Kuwait quanto a ação ulterior que quase custou o poder ao próprio Saddam. Assim também, as sanções impostas pela ONU - as exigências que incluem a atuação da Comissão de Desarmamento - fazem parte das consequências do ato inicial de agressão comandado pelo regime do Iraque. Há a considerar, igualmente, que persistem as dúvidas sobre a existência, naquele país, de armas proibidas nos acordos internacionais firmados também pelo Iraque, sendo a ação da Comissão da ONU apenas consequente da rebeldia do Governo de Bagdá.
Muitos já chamaram a atenção sobre o sofrimento do povo iraquiano face às sanções impostas pelas Nações Unidas, o que é reconhecido. Uma vez mais, porém, é imperioso perceber que esta situação persiste exatamente porque o Governo iraquiano insiste em posturas que afrontam as demais nações. Continua a haver ali uma evidente disposição de se colocar acima e além de determinações que surgiram em resultado de uma ação belicosa e agressiva que não se aceita mais nas relações entre os povos.
Não só para o Iraque, mas para o mundo, o ideal seria o fim das sanções impostas pela ONU, a reinclusão daquele país no contexto mundial, com todas as consequências, inclusive as comerciais. Se o petróleo iraquiano voltar ao mercado, hoje, sem restrições, poderá até haver redução nos preços do produto, o que é valioso para grande parte do mundo, ao tempo em que o povo daquele país poderia voltar a ter condições melhores de vida. Isso, porém, depende mais do Governo de Bagdá do que dos outros países. E a postura do sr. Saddam Hussein evidencia que ele não parece disposto a aceitar as determinações da ONU para a convivência pacífica com os outros povos.





