Ameaça à estabilização
Às vésperas de comemorar cinco anos de mandato (um ano do segundo e os outros quatro do primeiro) o presidente Fernando Henrique Cardoso lançou, de Havana, onde se encontra para participar da 9ª Conferência Ibero-Americana, um apelo para que os brasileiros se unam e reajam contra os aumentos excessivos de preços que vêm sendo praticados por alguns segmentos. Segundo o presidente, está havendo abuso com alguns produtos.
Lembrando a ação dos consumidores no começo do ano, depois da desvalorização do real, quando estes enfrentaram os abusos pelo expediente de suprimir compras, Fernando Henrique Cardoso sugeriu que o mesmo seja feito agora. Adicionalmente, o presidente fez críticas aos empresários que estão aumentando preços, lembrando que esta atitude, entre outras coisas, torna problemática a adoção de medidas de contenção dos juros.
Tem-se, de certo modo, a repetição do que vem acontecendo há tempos, com o mesmo apelo e idêntico enfoque. Depois de tantos sacrifícios da população, insiste o presidente em transferir para os cidadãos um esforço que já vem sendo feito e que, a esta altura dos acontecimentos, deveria ter dado mais resultados.
De fato, torna-se fundamental a participação plena do consumidor nesta luta contra a alta de preços, que é de todos. Entretanto, o que não deveria ser esquecido é que o brasileiro está atravessando mais um momento crítico. A falta de empregos, a recessão, a redução no poder aquisitivo dos salários são fatores por si angustiantes e que aumentam as dificuldades da maioria da população.
Na verdade, diante da situação atual, talvez nem houvesse a necessidade de se apelar para a contenção de compras. Atualmente, a redução do consumo nem depende de mobilização popular, resultando de um quadro muito sério de empobrecimento de várias camadas da população. Para piorar, a resposta do comércio a esta queda nas compras tem sido diferente da observada nos primórdios do plano de estabilização, quando a lei de oferta e procura chegou a funcionar. Agora, porém, a impressão é a de que se está, lenta, mas inexoravelmente, retornando ao quadro de antes do Plano Real: se o consumidor compra, os preços sobem; mas se reduz as compras isto não se reflete na outra ponta.
Ao lado dos apelos, são necessárias atitudes mais concretas por parte dos que estão gerindo a economia. Na semana passada, autoridades econômicas indicaram que pretendiam evitar reajustes nas tarifas dos serviços públicos para tentar conter a retomada inflacionária. Paralelamente, os responsáveis pelos setores ligados às empresas que estabelecem as tarifas retrucaram informando que isto não é possível porque existem contratos determinando reajustes em função da alta do dólar. Um setor do governo tenta agir de um modo, outro o enfrenta. No meio, o presidente que em vez de adotar decisões efetivas, pede ao povo para consumir menos. Como, porém, muita gente já está em nível de subconsumo, sem medidas concretas de recuperação do poder aquisitivo da população logo haverá escassez ainda maior de consumidor, complicando de vez a situação.
As tarifas dos serviços públicos foram responsáveis, nos últimos tempos, por pressões bastante sérias sobre a inflação e o custo de vida de modo geral. A anunciada necessidade de novos reajustes ameaça complicar todo o programa econômico, ultrapassando as metas de inflação para este ano. A falta de diretrizes comuns, em todas as esferas de governo, representa por si uma forte ameaça para a própria política de estabilização da moeda.

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