Editorial - Ambiente em discussão
Ambiente em discussão
Reunidos durante duas semanas em Bonn, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, 3.000 delegados de 168 países debateram as regras de aplicação do protocolo de Kyoto (1997), acordo internacional que obriga 38 países desenvolvidos a reduzir, no ano 2010, 5% em média, em relação a 1990, suas emissões de CO2 (gás carbônico) e outros gases considerados responsáveis pelo aquecimento do planeta. No final da conferência, ontem, países ricos e pobres confirmaram sua vontade de lutar contra o efeito estufa. Entretanto, continuaram demonstrando divisões em relação aos meios para atingir este objetivo. O fato possivelmente mais importante foi que todas as partes conseguiram um acordo, não sem dificuldades, sobre a necessidade de respeitar a data limite previamente combinada, novembro do ano 2000, para finalizar a discussão a respeito das novas regras. A conferência de Haia, que vai se realizar entre os dias 13 a 24 de novembro do próximo ano, deverá permitir a ratificação do protocolo por parte das grandes potências antes de sua entrada em vigor, em 2002.
Não é ainda um grande avanço. Ao contrário, o que se percebe é que embora tenha crescido muito a consciência sobre a gravidade da situação em quase todo o mundo, o que implica, naturalmente, na necessidade da adoção de medidas concretas para evitar as piores consequências sobre o clima no planeta, persiste infelizmente uma falta de vontade objetiva em busca de resultados. De certo modo, esta situação é ainda mais preocupante do que a que existiu ao longo dos tempos, quando os homens depredavam o ambiente, produziam condições para deteriorar o clima, ameaçando com isto a própria vida humana na Terra, já que, então, a consciência sobre a tragédia ecológica era quase nula. A História do homem sobre o planeta tem sido, sabe-se, uma contínua e inconsciente agressão ao meio. Ao longo dos milênios, o chamado rei da criação agiu como se não houvesse qualquer ameaça à sua existência vinda do meio ambiente.
Atualmente, não só cresceu a percepção sobre a realidade de um planeta que está sendo destruído pelos seus ocupantes principalmente o ser humano , mas também já existe o entendimento segundo o qual serão necessárias grandes e rápidas mudanças de procedimento para garantir a sobrevivência do homem na Terra. Por causa disto, seria de esperar que fossem menores as resistências em face da necessidade da adoção de medidas capazes de modificar a situação. Entretanto, os chamados países desenvolvidos, que são também os maiores poluidores do mundo, persistem em não ceder diante da situação. O pouco que foi aceito em conferências anteriores, como a redução das emissões de CO2, continua a ser questionado e persiste a má vontade no sentido da adoção de medidas reais para reduzir a pressão destrutiva sobre o ambiente.
O que preocupa mais é perceber, junto às nações poluidoras, uma mentalidade colonizadora que persistiu ao longo dos séculos no mundo e que dificulta uma mudança radical em seus procedimentos. Os países ricos continuam a considerar as nações pobres como subalternas e insistem em lançar sobre elas todas as obrigações, fugindo de suas próprias responsabilidades. Pode-se até considerar que o hedonismo, sem dúvida uma das marcas deste final de século, surge como fator a dificultar a adoção de qualquer tipo de sacrifício, ainda que em benefício próprio. Este tipo de procedimento, contudo, é perigoso. O mundo jamais teve tantos habitantes quanto atualmente. E a perspectiva é de um crescimento contínuo. Se não houver a adoção de medidas sérias para conter a destruição ambiental, esta imensa população corre enorme risco de estar forjando sua própria destruição.





