Editorial - Alternativas ao crescimento
Alternativas ao crescimento
A revisão do acordo feito com o FMI, permitindo ao Brasil usar US$ 2 bilhões das suas reservas, permitirá ao Banco Central adotar medidas para tentar conter a especulação que vem ocorrendo nos últimos dias em relação ao dólar. Problema sério, o próprio presidente do BC já assinalou que a eventual escalada altista do dólar poderia colocar em risco a política contra a inflação, preocupação natural do governo diante dos sinais que se percebem sobre uma possível retomada da indexação, o ponto focal do descalabro que atingiu a economia brasileira nos anos anteriores ao real. Em realidade, administrar uma política com aceitação de certa taxa de inflação, como vem acontecendo em função do acordo com o FMI, é uma questão complexa. Se é difícil estabelecer políticas para conter a inflação, para reduzi-la e até zerá-la, é ainda mais complicado estabelecer um certo nível, eventualmente aceitável, e permanecer nele. O risco é sempre o de se perder o controle e a taxa subir. Ademais, não se pode esquecer que uma situação como esta atrai os especuladores de toda ordem, que já deixaram bem clara, com a pressão que se observou ao longo da semana, sua disposição de forçar altas para lograr os costumeiros benefícios.
O Brasil ainda não superou as crises que se abateram sobre o país nos últimos tempos. Houve uma reação adequada, a maior parte das dificuldades vem sendo superada, até mesmo uma parcela da especulação foi contida, mas é certo que persistem fatores complicados, tanto interna quanto externamente, a manter este quadro de crise que preocupa e assusta ao dar margem à instabilidade. O governo tem tentado, através de medidas econômicas, incluindo esta nova negociação com o FMI, superar as dificuldades, o que tem sido conseguido embora com muitos sacrifícios, notadamente para a população. A alta do dólar, neste momento, produz mais inquietação inclusive porque a economia está num momento delicado. Os reclamos relativos à necessidade de uma injeção capaz de reaquecer a economia, especialmente para aliviar um pouco a elevada taxa do desemprego, se chocam com os temores de que isto poderá também alavancar a inflação, o que é inaceitável depois de tanta luta para superar a situação anterior ao plano de estabilização.
Em meio a toda esta nebulosa situação, continua evidente que medidas oficiais podem amenizar as dificuldades, mas não resolvem o problema. Apesar do temor relativo a um eventual reaquecimento econômico, não há dúvidas a respeito de que este é o caminho. O Brasil precisa aumentar a produção, de modo geral, para produzir recursos que possam aliviar a crise interna e, por extensão, criem condições capazes de estabelecer bases sólidas para o crescimento. A previsão da safra agrícola para este ano, divulgada pelo IBGE, embora pareça um fato totalmente desvinculado da crise econômica, é de molde a restaurar esperanças. Segundo o instituto, o Brasil deve produzir 82,39 milhões de toneladas, um volume recorde em todo o período de medição da produção pelo IBGE, desde 1973. A safra mais próxima deste resultado aconteceu em 1995, ano que mais refletiu os efeitos do Plano Real, com melhores investimentos, quando a produção chegou a 79,3 milhões de toneladas.
Este continua a ser o caminho aberto ao Brasil para superar todas as dificuldades que enfrenta. O campo responde sempre de modo rápido e concreto ao trabalho e ao investimento. Na medida em que houver uma efetiva política de apoio à agricultura e à pecuária, com incremento da produção e do trabalho, surgirão naturais consequências positivas ao desafio de se tirar o País deste aparentemente infindável atoleiro do subdesenvolvimento.





