Editorial - Alta nos juros
A decisão do Banco Central, adotada na noite de quinta-feira, de elevar a Taxa de Assistência do Banco Central (Tban), de 29,75% para 49,75% ao ano constitui, sem dúvida, uma derrota para as autoridades na verdadeira queda-de-braço que estavam travando contra os especuladores. Mesmo assim, o mercado recebeu bem a medida, ainda que cauteloso quanto aos seus efeitos reais na contenção da saída de dólares do país. O aumento dos juros, depois de um dia inteiro de negativas por parte da equipe econômica, arranhou um pouco a credibilidade do governo, mas é uma decisão até compreensível diante do agravamento da situação, com as quedas nas bolsas evidenciando que as medidas de terça-feira não tinham sido suficientes para conter a evasão de dólares. Além disso, entre as medidas mais duras que poderia adotar esta é talvez a que contém menor efeito colateral. Depois de anunciar cortes no Orçamento e de ampliar um pouco os juros, restava às autoridades da economia pequena margem de manobra, como o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso assinalou. As opções eram, principalmente, aumentar mais a taxa de juros, elevar os impostos ou desvalorizar a moeda.
O que o Banco Central espera é que com esta alta haja um refluxo na evasão de divisas que, sempre é importante lembrar, constituem o lastro do real. Nos últimos dias houve uma revoada assustadora de divisas o que, se continuar, pode deflagrar uma crise econômica interna incontrolável. Era preciso fazer alguma coisa. Quanto ao fato de que esta medida vinha sendo negada o dia inteiro, não é caso para maiores críticas, no quadro da própria economia. Ninguém antecipa este tipo de decisão. O recente exemplo russo está aí para ser lembrado. O presidente Yeltsin garantiu que não iria mexer no rublo. Em seguida, determinou a desvalorização. Para o governo russo, esta pareceu a melhor opção. No Brasil, o BC acredita que não precisa chegar a tanto. Aumenta os juros e espera que, com isto, seja possível reverter a tendência observada nos últimos dias. Trata-se de tentar ganhar fôlego diante da escalada da crise, no momento em que fatores externos indicam a possibilidade de uma reversão na situação.
Não há dúvidas que os reflexos desta alta serão sentidos em vários setores. Todo o esforço que se vinha fazendo para retomar a atividade, uma alternativa positiva na luta contra o desemprego, ficará comprometido. Com juros mais altos, as consequências diretas virão sobre o comércio, a indústria, a agricultura. Haverá aumento nas prestações da casa própria e o crediário, que constituía um elemento importante para tentar melhorar o fluxo do comércio, também vai se ressentir. Todavia, se esta medida provocar a resposta esperada, especialmente a volta do capital volátil que estava fugindo do País na esteira da crise, isto por si já oferecerá condições para se enfrentar melhor as outras dificuldades.
É medida emergencial, idêntica à que foi tomada há um ano, quando a crise asiática também balançou mercados. Não é o que se desejava, mas no quadro cada vez mais assustador que se percebe em toda a economia mundial parece ser a hipótese menos ruim. Com algumas notícias mais alentadoras vindas do exterior, incluindo aí a anunciada intenção do Grupo de Paris e das grandes potências de oferecer suporte aos países da América Latina, é possível esperar que o pior, realmente, tenha passado. Em contato com o presidente Carlos Menem, da Argentina, o presidente Fernando Henrique Cardoso mostrou-se esperançoso que até o final do mês a situação mundial se acalme. É o que se espera e o que o Brasil e o mundo precisam.





