Editorial - Alta dos combustíveis
Os combustíveis estão mais caros. O governo confirmou o reajuste de 11,5% nos preços dos derivados de petróleo na refinaria, o que deverá resultar em aumentos da ordem de 6,5% para a gasolina, 4% no gás de cozinha e 8% no diesel. O aumento atinge também a nafta e o querosene de aviação. De acordo com nota conjunta divulgada pelos ministérios da Fazenda e das Minas e Energia, o reajuste destina-se a evitar que a combinação da desvalorização cambial com o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional tenha efeitos fiscais negativos. A nota explica que, de meados de janeiro até agora, o real sofreu uma desvalorização nominal da ordem de 35% ante o dólar. No mesmo período, o preço internacional do petróleo subiu cerca de 30%. Ambos elevam o custo de produção dos combustíveis, mas até agora somente parte desse impacto havia sido repassada ao consumidor.
O problema é que desde janeiro os preços dos combustíveis subiram, com este novo reajuste, cerca de 26%, enquanto a inflação, no período, apesar de tudo, mesmo pelos índices mais pesados (os do Dieese), não chegou aos 4%. E por mais que se aceite os argumentos oficiais, ficam sempre dúvidas sobre o discurso oficial a respeito dos esforços destinados a manter a estabilidade e o modo de agir do governo, que autoriza reajustes como os dos combustíveis e, também, os de tarifas como as da energia elétrica. Tais fatores pesam de modo pleno sobre o custo de vida, ao tempo em que enfatizam que manter o valor do real é a principal preocupação das autoridades.
Mais interessante ainda é observar que essa política dá a impressão de estar na contramão dos fatos. Com efeito, a necessidade do reajuste nos preços dos combustíveis foi justificada com a alta do dólar diante da desvalorização do real. E, como se sabe, o País ainda tem enorme dependência externa em seu consumo de combustíveis. Quer dizer, se o real caiu ante o dólar, é até natural que aumente o preço do produto importado. Entretanto, depois da forte alta observada no momento da desvalorização do real, começou um refluxo e, hoje, o valor do dólar está bem inferior ao dos últimos tempos. Para o cidadão comum, é estranho ver que quando o dólar sobe, o preço acompanha, mas quando o real melhora, o valor não é reduzido. Ao contrário, continua a subir.
E as informações são as de que haverá novo reajuste no próximo mês, até porque o governo precisa gerar, até dezembro, um superávit de R$ 4,95 bilhões na conta-petróleo. O governo conta com esse resultado para atingir sua meta de superávit primário acordada com o Fundo Monetário Internacional (FMI), de R$ 30 bilhões este ano. A conta-petróleo é alimentada pela Parcela de Preço Específica (PPE), que é a diferença entre a receita obtida pela Petrobrás com a venda de derivados de petróleo no mercado interno e o preço com o qual a estatal é remunerada. O fluxo de recursos da PPE varia conforme o comportamento do dólar, do preço internacional de petróleo e do consumo.
Trocando em miúdos, isso significa que o brasileiro vai pagar mais pelo combustível, mesmo que o real se mantenha estável ou que o valor do petróleo lá fora caia. O mais sério neste quadro é que como o combustível, notadamente o diesel, pesa muito sobre o custo de vida, fica muito difícil esperar que a inflação continue baixa, apesar de todos os esforços e sacrifícios do cidadão. O que resta fazer, agora, é um esforço para racionalizar o consumo de combustíveis, como aconteceu quando do choque do petróleo, nos anos 70. Mas fica sempre complicado ver que a população luta por um objetivo e o governo cria novos obstáculos nesta luta. É, para o povo, uma missão quase impossível.





