Pesquisa realizada em Brasília, Curitiba, Salvador e Recife revela uma realidade brutal: quase a metade dos responsáveis por acidentes de trânsito no Brasil estava bêbada ou drogada. Os bêbados somaram 27,2% do total de 1.114 motoristas acidentados pesquisados nas quatro capitais; os drogados, 15,4%. Entre os drogados, 7,3% estavam maconhados, 3,4% haviam tomado tranquilizantes e 2,3% tinham cheirado ou injetado cocaína. Outros haviam tomado barbitúricos, anfetaminas ou opiáceos. E outros 33,8% haviam bebido, mas o nível de álcool no sangue era inferior ao admitido pelo novo Código Nacional de Trânsito.
A pesquisa foi realizada entre os dias 26 de agosto e 3 de setembro passados. Seu resultado, como informamos na edição de ontem, é estarrecedor. No momento em que se publica uma nova legislação de trânsito, a vigorar em janeiro, e são intensos os movimentos para descriminar o uso das drogas, especialmente a maconha, este estudo merece muita atenção. Não só pelo flagelo do álcool, mas porque se hoje a proporção de motoristas maconhados já é preocupante, passará a ser assustadora se esse entorpecente for liberado.
As drogas de qualquer natureza são causas constantes de problemas, não só clínicos, mas sociais, econômicos e policiais. Se já é difícil a situação criada pelas drogas legais - como o álcool e o cigarro -, o quadro ficaria muito pior com a liberação de drogas pesadas, mesmo aparentemente ‘leves’ como a maconha. É que uma droga ‘leve’ puxa inexoravelmente drogas mais fortes, como a cocaína e suas variantes. E mesmo que isto não ocorra com uma pessoa extraordinariamente controlada, seus efeitos são inevitáveis e o perigo ao dirigir é altíssimo. A maconha inibe o raciocínio e atrasa os reflexos do indivíduo.
Sua liberação seria, sem trocadilho, um desastre para o trânsito, expondo a risco de vida a pessoa de terceiros, dentro e fora dos automóveis. Álcool e fumo, por ser liberados, causam mais danos à população do que as drogas ilegais, que custam caro e são proibidas. Mas isto é puramente factual, devendo mudar radicalmente se houver uma liberação. Assim, não contentes em termos somente uma grande causa de acidentes fatais, contaríamos com duas.
O presidente da Associação Brasileira dos Departamentos de Trânsito (Abdetran), entidade que encomendou o estudo, Antonio Carlos de Carvalho, levará os resultados da pesquisa aos governos federal, estaduais e municipais e à ONU, pelo fato de o trânsito ser um dos maiores responsáveis por mortes e ferimentos em quase todo o mundo. Só no Brasil, ele informa, morrem 60 pessoas por dia nas vias urbanas, fora as que morrem nas estradas. É caso para uma mobilização nacional.
O álcool é responsável não só por acidentes de trânsito, mas, juntamente com o cigarro, é um dos flagelos da saúde pública em todo o mundo. E até agora têm sido tímidas as medidas para deter o seu consumo e o alcoolismo. Os números e a experiência indicam a necessidade premente de se insistir num trabalho de educação e prevenção mais amplo e de punição severa, sobretaxando duramente o consumo e multando pesadamente o infrator. Só assim o álcool talvez deixe de ser um agente de tantas mortes no trânsito.
Não do infrator, que pouco merece e se morrer sozinho melhor para todos, mas de inocentes que não tinham nada com isso.

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