Editorial - AL busca seu caminho
Falando durante a abertura, ontem, na sede da Unesco, em Paris, das discussões de um fórum sobre os desafios do desenvolvimento da América Latina no século 21, no marco da Assembléia anual de governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a ser realizada entre os dias 15 e 17 deste mês, o escritor colombiano, detentor do prêmio Nobel, Gabriel García Márquez assinalou que a nova geração de líderes políticos, econômicos, sociais e culturais que governarão a América Latina no próximo milênio deverá cumprir a tarefa histórica de remediar as ofensas do passado. Falando com firmeza sobre a realidade atual do continente, García Márquez lembrou a frase do escritor italiano Giovanni Papini, nos anos 40, segundo o qual a América foi feita com os restos da Europa. Hoje - disse - não só temos razões para suspeitar que isso é certo como também de algo mais triste: a culpa é nossa. O escritor recordou o apelo de Simón Bolívar, que, mortificado por uma dívida com os ingleses que ainda não acabamos de pagar e atormentado pelos franceses que tratavam de vender-lhe os últimos trastes de sua revolução, suplicou-lhes: Deixem-nos fazer tranquilos nossa Idade Média.
Um pouco de forma poética mas sem dúvida com grande realismo, o escritor colombiano deixou claro um dos grandes problemas da América Latina: o seu atraso. Há ainda um enorme abismo entre a situação das nações desenvolvidas do mundo e os povos da América Latina. A análise simplista que coloca como uma das causas do subdesenvolvimento apenas a questão climática há muito perdeu o valor. O fato de que as nações desenvolvidas se formaram nas regiões temperadas do mundo e que não se encontram países em tal estágio nas áreas mais quentes não pode ser o fator mais relevante na observação da realidade atual da América Latina e mesmo da África. O que se tem, entre outras coisas, são efeitos do colonialismo e de uma série de outros problemas, resultando tudo no quadro atual de um continente que ainda não conseguiu sair da Idade Média, e que vive, em boa parte, sob o feudalismo de governos demagógico-paternalistas.
Nossa virtude maior é a criatividade, e entretanto não temos feito muito mais do que viver doutrinas requentadas e guerras alheias, herdeiros de um Cristóvão Colombo desventurado que nos encontrou casualmente quando buscava a Índia, disse García Márquez. Por mais dura que seja a observação, ela é profundamente correta e, no contexto, de vez que o escritor falou a jovens do continente e os convocou para uma luta a fim de desenhar o futuro da América Latina, com vistas ao século 21, está muito bem colocada. Trata-se de colocar o desafio em sua dimensão, de afirmar que os latino-americanos precisam superar com disposição redobrada o atraso em que vivem, o que implica, sem dúvida, buscar alternativas próprias, aproveitando o que foi feito de bom nos países desenvolvidos, mas com a visão mais regional da questão.
O fórum promovido pela Unesco, com a participação de representantes latino-americanos do mundo político e institucional, empresarial, sindical e de organizações não-governamentais, discutirá quatro temas básicos: desafios do desenvolvimento; democracia e instituições políticas; cultura e sociedade; globalização. E embora não produza documentos conclusivos, é uma oportunidade para que haja uma observação mais direta sobre a realidade latino-americana, procurando alternativas que não sejam imitação ou importação, como nos séculos precedentes, mas que produza pistas para que a parte subdesenvolvida do continente encontre seu caminho.





